Dá a surpresa de ser

Dá a surpresa de ser É alta, de um louro escuro. Faz bem só pensar em ver Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem (Se ela estivesse deitada) Dois montinhos que amanhecem Sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco Assenta em palmo espalhado Sobre a saliência do flanco Do seu relevo tapado.

Apetece como um barco. Tem qualquer coisa de gomo. Meu Deus, quando é que eu embarco? Ó fome, quando é que eu como?

10-9-1930 - Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995) - 123.

sábado, 20 de outubro de 2018

Belo Canto e Vozes (III) – Barítono e Baixo

(In Wikipédia - Todos os excertos foram adaptados e algumas vezes traduzidos por Ricardo Santos) e ainda (In http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx).

Esta a terceira de três publicações que fiz para o meu anterior blogue “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades” (já apagado!), irão passar aqui de seguida. Deveriam ter vindo antes das que fiz sobre ópera, mas como “mais vale tarde que nunca”. E vamos começar por uma breve introdução e explicação.

Não sou ignorante em termos de música, mas não aprendi teoria sobre o belo canto, e sobre uma das disciplinas/artes mais bonitas que existem que é o culto da voz  humana.
Não sei muito e pesquisei sobre o belo canto e as suas vozes, para vos levar, e aí sim, é esse o meu principal intuito, a conhecer e a frequentarem, pelo menos uma vez, uma ida ao teatro para ouvirem e verem um espectáculo de ópera.

Primeiro que tudo vamos aprender o termo tessitura que é importante para continuarmos esta explicação:

Tessitura substantivo feminino
1. Música -  Disposição das notas musicais para se acomodarem a certa voz ou instrumento.
2. Figurado - Contextura; organização.

Barítono  substantivo masculino
1. Cantor cuja voz medeia entre a do baixo e a do tenor.
2. Instrumento metálico de sopro.

Baixo adjectivo
adj.
11. Cantor que dá as notas graves.
12. Corda (de instrumento) que dá sons graves.
13. Mar. Parte exterior do navio abaixo da linha de água.

Então vamos ver como se definem os barítonos e os baixos, as vozes médias e graves, respectivamente, que os homens podem ter:

Barítono Ligeiro - é o timbre mais leve entre os barítonos, de grande extensão aguda e cor clara, possui grande agilidade e é flexível dinamicamente, é conhecido no repertório francês em operetas e óperas escritas para a voz de Jean-Blaise Martin – “Barítono Martin” que criou diversos papéis em operetas e um estilo de técnica anasalada que torna o timbre mais claro e menos volumoso, o idioma francês ajuda na emissão anasalada e nas palavras pronunciadas. Sua tessitura usual é do Sol1 ao Sib3 (Dó4).

Barítono Lírico - é o timbre típico do barítono: É expressivo, igualmente timbrado, de sonoridade melódica e harmónica, dinamicamente flexível. Possui uma cor escura e aveludada, a agilidade não é espontânea, mas não é impossível. Sua tessitura usual é do Sol1 ao Sol3.

Barítono Dramático - é o timbre mais pesado dos barítonos, mais escuro e mais metálico, um timbre igualado em ambos os registos com grande amplidão sonora, com generosidade em interpretações dramáticas. Sua tessitura usual vai do Fá1 ao Sol3.

Barítono Alto ou de Carácter - é o um tipo de Barítono Dramático mais intenso e com um registo agudo seguro, é expressivo, muito metálico de grande amplidão sonora, é o barítono típico do reportório de Verdi, cheio de dramatismo e vigor. Sua tessitura usual é do Sol1 ao Lá3.

Baixo Ligeiro - é o timbre mais leve entre os baixos é mais raro e muito brilhante usado bastante em papéis “buffos” (1) ou de coloraturas em operetas francesas. O timbre é semelhante ao Baixo-Barítono, mas é mais leve de dicção clara, muito ágil e com agudos mais leves e brilhantes. Sua tessitura usual é do Fá1 ao Fá3,raramente vai do Lá3

Baixo Cantante - é o timbre típico do baixo: Igualmente timbrado em toda gama, rico em harmónicos, notavelmente expressivo e capaz de maior vocalização que o Barítono. Sua tessitura usual é do Mib1 ao Fá3.

Baixo Profundo - é o timbre mais grave e mais pesado entre todas as vozes. Muito intenso consequentemente menos igual, que atinge no registo grave uma sonoridade cavernosa e no registo agudo uma qualidade enérgica e um pouco áspera. Sua tessitura usual é do Sib-1 ao Mi3.

Baixo Superprofundo - é o timbre mais grave masculino, com um registo raríssimo, que abarca cerca de duas oitavas abaixo da media, alcançando notas muito graves, o timbre é uma continuação do baixo profundo com um registo grave muito extenso. Sua tessitura usual é do Dó-1 ao Dó3.

(1) “Buffos” são papéis de ópera característicos e de uma tipologia caricata em toda a história da opera buffa napolitana e de suas congéneres desde o “singspiel” de Hamburgo até o “vaudeville” e a “zarzuela”, os cantores buffos são primeiramente actores com “gags” e “cacoetes” que deriva da mais pura tradição da comédia “dell’ arte”, todavia, é também uma voz capaz de inflexões grotescas ou até ridículas assim como os acentos expressivos, nas mais rigorosas linhas do Bel Canto. Não exige grande extensão e beleza vocal, mas deve possuir agilidade fácil e riqueza de matizes.

Vamos aos exemplos de barítonos e baixos, dois de cada, penso ser suficiente.

Começamos com os dois para as vozes de barítonos. Primeiro da ópera “O Barbeiro de Sevilha”, de Gioacchino Rossini (1792-1868), a ária “Largo Al Factotum”, interpretada pelo Barítono John Rawnsley, no papel de Fígaro, o barbeiro.

John Rawnsley (14-12-1950) – Barítono britânico. Estudo no “Royal Northern College of Music” em Manchester, e fez a sua estreia com a ópera “Der Freischültz”, de Carl Maria von Weber (1786-1826) com a Glyndebourne Touring Opera em 1975. Cantou no papel de “Masetto” em Glyndebourne, em 1977, retornando a “Marcelo” (La Bohême), a “Fígaro” (O Barbeiro de Sevilha), e a Fígaro (Bodas de Fígaro) com a Ópera Nacional Galesa, em


Em segundo lugar, da opera “Carmen” de Georges Bizet (1838-1875), a célebre ária “Toreador”, interpretada pelo Baixo Ruggero Raimondi, no papel de Escamillo, Espada vindo da cidade de Granada.

Ruggero Raimondi (03-10-1941) - Barítono italiano. Raimondi nasceu em Bolonha, Itália. Aos quinze anos de idade ele foi ouvido por Francesco Molinari-Pradelli, que o encorajou a seguir com uma carreira de cantor lírico. Começou a estudar canto com Ettore Campogalliani e foi aceite no Conservatório Giuseppe Verdi , em Milão, aos dezesseis anos de idade. Continuou os seus estudos em Roma, sob as instruções de Teresa Pediconi e do maestro Piervenanzi. Depois de ter vencido o prémio da Competição Nacional de Novos Cantores de Ópera em Spoleto, fez sua estreia em ópera na mesma cidade, no papel de “Colline” da ópera de Giacomo Puccini “La Bohème”, no Festival dos Dois Mundos. Subsequentemente, teve oportunidade de cantar no Teatro da Ópera em Roma, quando ele foi chamado para ser substituto na papel de “Procida” da ópera “I Vespri Siciliani”. Conseguiu um enorme sucesso, sendo aclamado pelo público e pela crítica. O jovem cantor era muito tímido e acanhado, mas os directores, rapidamente, o ajudaram, tornando-se um actor de ópera.


Da ópera “O Barbeiro de Sevilha”, de Gioacchino Rossini (1792-1868), a ária “La calunnia e un venticello”, “a calúnia começa como um pequeno vento”, interpretada pelo Baixo Robert Lloyd, no papel de D. Bartolo, médico tutor de Rosina.

Robert Andrew Lloyd (Southend-on-Sea, Essex, 02-03-1940) - Educado no “Keble College”, em Oxford, estudou em Londres com o barítono Otakar Kraus, e fez a sua estreia profissional no “University College Opera” em 1969, como D. Fernando, da ópera “Leonore”, a versão mais recente de “Fidelio”. De 1969 a 1972, ele detinha o papel principal de baixo na “Sadler’s Wells Opera Company”, actualmente “English National Opera”, e de 1972 a 1982, tornou-se membro da “Royal Opera Covent Garden”.


Da ópera “O Elixir de Amor” de Gaetano Donizetti (1797-1848), a ária “Udite, O rustici !”, interpretada pelo Baixo Ildebrando D'Arcangelo  , no papel de Dr. Dulcamara.

Ildebrando D’Arcangelo (14-12-1969) – É um baixo italiano. Nativo da cidade de Pescara, Abruzzo. D’Arcangelo começou os seus estudos em 1985 no Conservatório Luisa D’Annunzio em Pescara, debaixo da orientação de Maria Vittoria Romano. De 1989 a 1991 ele cantou no Concurso Internacional “Toti dal Monte” em Treviso, onde se estreou a cantar “Cosi Fan Tutte” e “D. João” de Amadeus Mozart. Ele cantou de várias regências dos maestros, tais como, Claudio Abbado, Valery Gergiev, Christopher Hogwood, Georg Solti, Bernard Haitink, Riccardo Muti, John Elliot Gardiner, Riccardo Chailly, Myung-Whun Chung, Nikolaus Harnoncourt e Seiji Ozawa.
Cantou já no “Metropolitan Opera” em New York, no “Royal Opera House Covent Garden” em Londres, na “Opéra National” (Bastilha) em Paris, na “Lyric Opera of Chicago” em Chicago, no “Staatsoper” e no “Theater an der Wien” em Viena de Áustria, e no “Salzburger Festspielen” em Salzburgo.

16 comentários:

  1. Penso que já lhe disse que adoro ópera. Tenho a Carmem e o Barbeiro de Sevilha. E muitas mais. Não tenho o Elixir do Amor
    Abraço e bom domingo

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    1. Eu também gosto de Ópera e tenho também algumas !
      Obrigado Elvira

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  2. Os vídeos são fantásticos!!!
    Bom domingo!

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  3. Desconhecia as explicações que deste, gostei de aprender.
    Gosto de ópera e os vídeos que escolheste são fabulosos.

    Bom Domingo Ricardo

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  4. Interessante!
    Aprendi várias coisas que desconhecia.
    Bom domingo.

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    1. Ainda bem Célia que trouxe algo de novo que desconhecias. "Todos é que sabem tudo".
      Este meu blogue tenta trazer coisas diferentes, sempre maioritariamente música, depois fotografia, e algum humor. Agora estão a decorrer publicações sobre cinema que irão durar algum tempo, dado que não as publico todas as semanas.
      Obrigado pela visita

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  5. Percebo pouco de música. É mais o "gosto" e o "não gosto". :)
    Não imaginava existirem tantas "nuances" para categorizar um barítono.

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    1. Existem bastantes, como podes constatar. A música é algo que nos dá boa disposiçao e acalma, pelo menos a que eu ouço.
      Obrigado Luísa

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  6. Toreador, uma ária que adoro.
    Aquele abraço, boa semana

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  7. Interessa saber para os amantes da ópera as diversas nuances das vozes.
    Claro que o barítono é quase sempre uma personagem secundária.

    Na próxima quinta-feira vou ver *O rapto do serralho* de Wolfgang Amadeus Mozart.
    Gostas desta ópera, Ricardo?
    Mão é a minha favorita, mas mesmo assim, gosto.

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    1. Acho que ouvi o "Rapto do Serralho" umas duas vezes. No teatro não tenho a certeza se a cheguei a ver e ouvir, mas em disco, possivelmente essas duas vezes. Já não me lembro!
      Obrigado Teresa

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  8. Que vozes poderosas!! :)
    A "Carmen" e o "Barbeiro de Sevilha" são talvez das óperas mais mediatizadas e conhecidas e continua a ser um prazer escutar excertos dessas obras.

    Como já disse no post anterior, são imensas as subdivisões de cada tipo de voz o que torna difícil a sua distinção e classificação. Então para leigos como eu... tarefa impossível.
    Por acaso gostava de saber classificar o meu tipo de voz. Tenho muita dificuldade em cantar uma música do princípio ao fim sem esforçar a voz porque... as canções de vozes femininas são muito agudas para mim (acabando por ter de cantar em falsete para conseguir manter-me dentro do tom) e as canções masculinas já são mais graves e nem o meu registo mais baixo as consegue acompanhar na totalidade.

    Beijinhos dentro do tom
    (^^)

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  9. Carmen e Barbeiro deverão ser das óperas mais vistas das chamadas clássicas e obrigatórias para quem quer começar a ouvir/ver este excepcional género musical.

    A diferenciação de vozes, em tenores, sopranos, contraltos, barítino e baixos somente os técnicos e os estudiosos conseguem fazê-la.

    As vozes das mulheres são na grande maioria "sopranos". Assim será, eventualmente, a tua.

    Obrigado Afrodite

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Eu fiz um Pacto com a minha língua, o Português, língua de Camões, de Pessoa e de Saramago. Respeito pelo Português (Brasil), mas em desrespeito total pelo Acordo Ortográfico de 90 !!!