A bicicleta rodopiava dentro da arena. Ricardino
era um autêntico malabarista de circo. As crianças olhavam-no, extasiadas, ao
vê-lo fazer acrobacias em duas rodas. Ele andava para trás, girava sobre si,
passava por cima de um estreito corrimão, que maravilha !.... no final as
palmas eram a resposta perfeita para tão boa exibição.
Ricardino agradecia por mais que uma vez
e muitas vezes tinha de repetir a última façanha. Os miúdos adoravam-no e os
adultos também.
Ele escrevia-lhe cartas de amor. Todos os dias
uma nova. Ele era alguém que Henriqueta se habituara a olhar, ternamente, com
os seus olhos doces e meigos. Mais uma carta do seu mais-que-tudo. Mais uma que
ia continuar a encher o pequeno baú que tinha no quarto. Dezenas de envelopes
de várias cores e tamanhos, mas todos eles com o mesmo coração pintado de vermelho.
De quando em vez, sabia-lhe bem um gelado de três
sabores, do sr. Adalberto, que os vendia numa carrinha multicor,
mesmo ao lado da maior tenda do circo. As escolhas eram as do costume: limão,
chocolate e morango.
Ela fazia-lhe companhia, e assim, ambos
sentados na primeira fila de um circo vazio, antes do espectáculo começar, chupavam
os gelados e falavam que iriam casar um com o outro, no futuro, e teriam dois
filhos. Um Francisco e uma Isabel. Ele queria que os filhos estudassem e
tivessem outra vida diferente da dele. Henriqueta não se importava que eles
trabalhassem no circo. Ricardino parecia-lhe ser feliz.
Às vezes, os dois na tenda grande,
olhavam para um lado e para outro… “a tenda está vazia, dás-me um beijo ?”
Henriqueta chegava a cara dela à dele e os seus lábios tocavam nos dele,
unindo-se, como se nada mais interessasse no Mundo que não fosse este toque entre
uma mulher e um homem.
O carro do José, levara os amigos, Ricardino e
Henriqueta. Saíram os dois, em direcção a casa dos pais dela. Mãos dadas, risos
nas faces, dando uma corrida feitos miúdos, dirigiram-se para a porta da rua.
Henriqueta carregou no botão da campainha da porta. A D. Conceição apareceu, cumprimentou a filha e deu um beijo ao Ricardino. Entraram e seguiram em
direcção à sala onde os esperava o Sr. Arménio. D. Conceição juntou-se aos
três. Sentaram-se e Ricardino um pouco envergonhado, começou a falar.
“D. Conceição, Sr. Arménio, vim aqui a
vossa casa para, para… …. Para o quê rapaz ? O que pretendes tu ?” – atalhou o
Sr. Arménio.
“Venho pedir a mão da vossa filha em
casamento !” – balbuciou Ricardino, enrubescendo-lhe as faces.
Os óculos do Sr. Arménio cairam-lhe do nariz, tal
fora a inesperada frase do rapaz !











