Dá a surpresa de ser

Dá a surpresa de ser É alta, de um louro escuro. Faz bem só pensar em ver Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem (Se ela estivesse deitada) Dois montinhos que amanhecem Sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco Assenta em palmo espalhado Sobre a saliência do flanco Do seu relevo tapado.

Apetece como um barco. Tem qualquer coisa de gomo. Meu Deus, quando é que eu embarco? Ó fome, quando é que eu como?

10-9-1930 - Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995) - 123.

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terça-feira, 30 de outubro de 2018

A Contar pelos Dados (11) – Coisas à antiga



A bicicleta rodopiava dentro da arena. Ricardino era um autêntico malabarista de circo. As crianças olhavam-no, extasiadas, ao vê-lo fazer acrobacias em duas rodas. Ele andava para trás, girava sobre si, passava por cima de um estreito corrimão, que maravilha !.... no final as palmas eram a resposta perfeita para tão boa exibição.
Ricardino agradecia por mais que uma vez e muitas vezes tinha de repetir a última façanha. Os miúdos adoravam-no e os adultos também.

Ele escrevia-lhe cartas de amor. Todos os dias uma nova. Ele era alguém que Henriqueta se habituara a olhar, ternamente, com os seus olhos doces e meigos. Mais uma carta do seu mais-que-tudo. Mais uma que ia continuar a encher o pequeno baú que tinha no quarto. Dezenas de envelopes de várias cores e tamanhos, mas todos eles com o mesmo coração pintado de vermelho.

De quando em vez, sabia-lhe bem um gelado de três sabores, do sr. Adalberto, que os vendia numa carrinha multicor, mesmo ao lado da maior tenda do circo. As escolhas eram as do costume: limão, chocolate e morango.
Ela fazia-lhe companhia, e assim, ambos sentados na primeira fila de um circo vazio, antes do espectáculo começar, chupavam os gelados e falavam que iriam casar um com o outro, no futuro, e teriam dois filhos. Um Francisco e uma Isabel. Ele queria que os filhos estudassem e tivessem outra vida diferente da dele. Henriqueta não se importava que eles trabalhassem no circo. Ricardino parecia-lhe ser feliz.

Às vezes, os dois na tenda grande, olhavam para um lado e para outro… “a tenda está vazia, dás-me um beijo ?” Henriqueta chegava a cara dela à dele e os seus lábios tocavam nos dele, unindo-se, como se nada mais interessasse no Mundo que não fosse este toque entre uma mulher e um homem.

O carro do José, levara os amigos, Ricardino e Henriqueta. Saíram os dois, em direcção a casa dos pais dela. Mãos dadas, risos nas faces, dando uma corrida feitos miúdos, dirigiram-se para a porta da rua. Henriqueta carregou no botão da campainha da porta. A D. Conceição apareceu, cumprimentou a filha e deu um beijo ao Ricardino. Entraram e seguiram em direcção à sala onde os esperava o Sr. Arménio. D. Conceição juntou-se aos três. Sentaram-se e Ricardino um pouco envergonhado, começou a falar.

“D. Conceição, Sr. Arménio, vim aqui a vossa casa para, para… …. Para o quê rapaz ? O que pretendes tu ?” – atalhou o Sr. Arménio.

“Venho pedir a mão da vossa filha em casamento !” – balbuciou Ricardino, enrubescendo-lhe as faces.

Os óculos do Sr. Arménio cairam-lhe do nariz, tal fora a inesperada frase do rapaz !

terça-feira, 11 de setembro de 2018

A Contar pelos Dados (10) – O tiro (continuação do 9, e única)


Pediram-me a continuação do anterior e aqui fica esta única continuação…



Jorge continuava de cara carrancuda, não dava para Guedes não reparar.

- Peço desculpa pelo atraso. Deitei-me tarde e acordei cheio de sono !
- Tudo bem ! Vamos começar a trabalhar que temos muito que fazer hoje !

Entraram na pastelaria da esquina para beberem um café. Jorge e Guedes sentaram-se e pediram os cafés. O empregado trouxe-os de seguida e colocou-os em cima da mesa.

O telefone tocou no balcão da pastelaria. O dono atendeu.

- Alguém aqui chamado Jorge Salavisa ? – virando-se para o local das mesas.
- Sim, sou eu ! – exclamou o inspector Jorge.

Começou a falar ao telefone e o assunto parecia sério e estranho, dadas as expressões faciais de Jorge. Desligou, pagou os cafés e saíu rapidamente com Guedes atrás.

- O que se passou ? – perguntou Guedes.
- Temos de ir já a casa de uma das testemunhas. Não estava previsto hoje, mas é forçoso irmos para lá agora. O polícia que está de guarda à habitação, ligou para a esquadra e eles ligaram para mim. Dizem que estar a haver dentro de casa um forte discussão.

Meteram-se no carro, colocaram a sirene na capota do veículo e deslocaram-se o mais rápido possível para o local. Uma núvem voltou a trazer um pequeno aguaceiro.

Guedes olhou para o relógio, eram 8:00. O carro virou numa rua à esquerda e deteve a sua marcha. A sirene foi atirada para o banco de trás e sairam da viatura, com passo apressado…

Um “bang” ouviu-se à medida que se aproximavam do prédio da testemunha. Era um tiro de pistola. O polícia que estava no exterior reconheceu o inspector Jorge e o agente Guedes e gritou:

- Parem aí que eu vou entrar em casa !

sexta-feira, 13 de abril de 2018

A Contar pelos Dados (9) – A carta lacrada


A manhã estava fria e o céu coberto de nuvens. O chapéu de detective assentava-lhe que nem uma luva. Jorge pertencia às brigadas da Judiciária, ia fazer cinco anos. Gostava de imitar o vestuário das séries policiais britânicas que passavam na televisão. Acrescentaria um cachimbo à  Sherlock Holmes se fumasse.

Durante estes anos, tinha ficado célebre pelo homicídio da "Casca da banana". Um caso que foi muito badalado na opinião pública e que os "media" encarregaram-se de falar vezes sem conta.

Guedes o seu colega estava atrasado. Tinham que ir conversar com duas pessoas, recolher os seus testemunhos e analisar depois os depoimentos. Olhou para o relógio. Os ponteiros obviamente não estavam parados e desde as 7:00 que Jorge estava a pé. Fez uma cara de quem estava chateado, com a falta de pontualidade do colega.

Por uns segundos abstraiu-se da espera e lembrou-se da carta.
Que carta seria aquela com um lacre em forma de coração ?

Entretanto, o Sol conseguira penetrar através das nuvens. O dia ia ser longo. Ao longe, finalmente, descortinou Guedes em passo apressado.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

A Contar pelos Dados (8) – Um dia de cada vez, mas passa depressa !


Ele crescia a olhos vistos e tinha uma paixão grande por jogar à bola. O pai tinha-lhe oferecido uma bola, do último Europeu, quando Portugal tinha ganho. Ele ficou louco e todos os dias, depois de chegar a casa e fazer os deveres escolares, havia chutos no esférico.

Convidava um ou dois amigos lá para casa e no quintal existente nas traseiras, eles já lá tinham baliza improvisada e até às 18:00, altura em que o Sol começava a cair no horizonte, era pontapé que fervia !...
O pai quando chegava do trabalho, ia para a janela que dava para o quintaleco, vê-los jogar. Algumas vezes sentiu-se tentado a descer e ir dar, também, uns chutos.
Depois o jogo acabava e iam refrescar-se. A Mãe fazia-lhes um jarro cheio de limonada e cada um tinha um copo com uma palhinha, por onde a bebiam.

Tinha já ele os seus 14 anos e as jogatanas não paravam. Um dia algo mudou na vida do Francisco, à conta do futebol e de um chuto que fez a bola transpor para outro quintal. Foi à arrecadação pegou num pequeno escadote, subiu e pulou para o quintal ao lado. Apanhou a bola. No regresso, tentou subir o muro, mas não estava fácil.
Na janela estava uma miúda ruiva, com o nariz cheio de sardas e uns lindos olhos castanhos. A rapariga presenciava Francisco na tentativa inglória de retornar ao seu quintal. Francisco parou e pressentiu que estava a ser observado. Tentou justificar-se, com a verdade. Madalena sorriu-lhe e disse que esperasse porque ela o iria ajudar. De dentro de casa trouxe uma escada e após uma breve conversa entre os dois, Francisco conseguiu regressar.

No dia seguinte o quintal do Francisco encontrava-se vazio. A bola dentro de um caixote, a baliza improvisada, arrumada na arrecadação. De João e Paulo nem vivalma. Por onde andaria o Francisco ?!
Quando Eduardo chegou do trabalho e perguntou à mulher pelo filho, Clotilde disse-lhe que o Francisco tinha ido ter com a Madalena, filha dos vizinhos do lado. O Pai percebeu que a loucura pela bola tinha desaparecido, Francisco crescera.

Também ele, tinha tido uma paixão pelo futebol. Chegou a ir para uma escola que o Pai insistiu que frequentasse. Um dia, tal como Francisco, Eduardo conheceu Clotilde, deveria ter sido há 30 e tal anos. Lembrava-se perfeitamente que a levara a passear. A geladaria do bairro, uma novidade na altura, vendia gelados muito bons e saborosos. Clotilde pediu um cone de 3 sabores, baunilha, chocolate e morango. Eduardo pagou e ficou sem dinheiro, disfarçando e argumentando que não gostava de gelados. As saudades desse tempo bateram-lhe na cabeça e no coração.

Francisco chegara. Beijou a Mãe e o Pai.

- Onde foste filho ? perguntou Clotilde.
- Não me digas que foste comer um gelado com a Madalena !? acrescentou o Pai.
- O Pai já sabe, a Mãe contou-lhe !? Gosto muito dela !... Não, não fui comer um gelado, fui andar de bicicleta !

A tarefa que o casal se propusera estava no bom caminho.

Eduardo abraçou Clotilde e deu-lhe um beijo na cara. Francisco juntou-se ao abraço.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

A Contar pelos Dados (7) – Os iluminados não são somente os humanos!


Ele era um lápis de grafite fina e tinha o condão de conseguir mudar de côr, a fazer lembrar um arco-íris. Filho de um lápis de carvão e de uma lapiseira de 5mm. Cedo, quando nasceu, se deu conta do dom que ele possuía. Mal começou a gatinhar em cima de uma folha de papel, o seu rasto mudou de cor, repetidamente. A Mãe e o Pai assustaram-se e consultaram um Professor Doutor de Tinta Permanente, contando-lhe o sucedido. Ele disse que já não era a primeira vez que isto acontecia e que dessem graças a Deus pelo dom do pequeno lápis que um dia ele iria querer ser diferente de todos.

Cresceu e um dia decidiu falar com os Pais sobre o seu futuro, e disse:

“Olhem quando crescer não vou querer ser um lápis de um mero fiel de armazém que passa o dia a subir uma escada, a fazer contagens e a debitar números no seu caderno de notas; Também não quero ser propriedade de um desenhador a lápis de cor que se me ponha a fazer desenhos de núvens e chuva, em folhas de papel cavalinho;  Não vou querer estar num restaurante e limitar-me a ver o empregado a colocar um prato e um talher na mesa, inúmeras vezes, e depois a escrevinhar-me fazendo as contas das refeições, no seu bloco de recibos; E muito menos quero estar dentro de uma pasta escolar para fazer aqueles desenhos infantis que se aprendem na escola.

O que eu quero mesmo, é partir na bolsa de um oceanógrafo, numa exploração pelos mares e chamar a atenção da necessidade de proteger as faunas e floras dos Oceanos, e a defender os mamíferos maiores do nosso planeta Terra, que são as baleias !”

O Pai virou-se para a Mãe e disse:

“Bem dizia o Professor Doutor de Tinta Permanente !!!”

domingo, 12 de novembro de 2017

A Contar pelos Dados (6) – Agência de Viagens



Agência Pinheiro Bravo

Viagens em “Autopullman” a 5 destinos turísticos do nosso País; Chegado lá, pode desfrutar de uma viagem de balão, com os nossos balonistas experientes, e simultaneamente, matar a sua sede, a bordo. De Verão servimos uma bebida fresca, e de Inverno, poderá aquecer-se com o nosso cacau quente. A paisagem é avassaladora e maravilhosa.
Lamentamos, mas não temos casa de banho a bordo dos balões, terá de satisfazer as suas necessidades antes de partir, nas nossas estupendas instalações sanitárias.

Viagens a preços muito acessíveis e de chorar por mais !!!

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A Contar pelos Dados (5) – A “Lisbonense”


Raúl dirigia-se à leitaria do bairro, com passo apressado. O café matinal tirado pela Rita era como um bálsamo para o seu organismo. Um último salto, para ultrapassar a poça de água, em frente, à “Lisbonense”. A chuva abatera-se sobre Lisboa, desde as 6 horas da manhã.

- Bom dia Rita ! Que raio de chuva !...
- Bom dia Sr. Raúl ! É Outono, é tempo dela !

Rita a empregada, era assim uma solteirona bonita, bem medida e que gostava de estar bem arranjada à frente da loja do pai. Vestidos rodados e abaixo do joelho, e a cara sempre simplesmente maquilhada, a condizer com a roupa que trazia vestida. Hoje, a roda era um “bordeaux”, por isso os lábios tinham um tom avermelhado silvestre. Raúl olhava-a com algum despudor e Rita deixava-se tocar pelo olhar dele.

- Sr. Raúl aqui tem o seu café !
- Obrigado Rita !

A porta da “Lisbonense” abria-se de novo.

- Pai, pai !...
- Diz, filho !
- O Pedro ontem lá na escola, estava a subir numa árvore e de repente, escorregou, como se tivesse posto o pé em cima de uma casca de banana...

O João era um miúdo esperto e estava com o seu grande amigo, o pai, Francisco. Todos os dias, normalmente, depois de Raúl, eles eram os clientes seguintes. Francisco enviuvara e desde então, dedicara a sua vida ao filho. Nunca pensara em casar de novo.

- Mas filho, o que é que o Pedro, o teu amigo, ia fazer em cima da árvore?
- Pai, ia tentar apanhar um passarito. Uma tarefa difícil, sem uma rede, não achas Pai?
- Sr. Francisco ! – interrompeu a Rita.
- Hoje é dia do seu filho levar o hamburguer para a escola, não é ?
- É sim Rita ! Simples com uma folha de alface e duas rodelas de tomate...

- E aquela carne saborosa, do talho do senhor Cruz ! – atalhou o João sorrindo.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A Contar pelos Dados (4) – Há quem plante uma árvore...


Acordou tarde. Olhou pela janela. A flor crescia no canteiro onde João a plantara. Era uma muito bonita, parecia uma tulipa. Ele não percebia nada de flores, nem estava interessado em perceber, para poder saber-lhe a espécie e catalogá-la. Era bonita, pronto !

Hoje era dia de almoçar leve, porque tinha desporto à tarde. Levantou-se, foi direito à casa de banho e tomou um duche rápido.

- Onde é que vou comer ? ... pensou.

Saíu, e dirigiu-se à pastelaria, onde costumava tomar pequeno-almoço.

- Bom dia !
- Bom dia Sr. João !
- O que deseja ?
- Arranja-me um hamburguer, se faz favor ?!
- Claro que sim !

Quando chegou ao recinto já os seus amigos de futebol trocavam a bola entre e si e gritaram, dizendo.
- Vê se te despachas, és sempre o mesmo !... Atrasado !

O jogo correu bem. Tomou um duche. Vestiu-se e rumou a casa. Estava cansado e precisava ir repousar um pouco. Ao passar o portão do jardim, viu o seu gato, a fugir que nem um maluco para as traseiras da casa. Algum disparate ele tinha feito. Já não era a primeira, nem seria a última vez que o faria, e acabava sempre fugindo a sete pés. De repente lembrou-se...

- A minha flor !!!....

Lá estavam as provas do crime, as pégadas do animal, na terra onde a flor tinha sido plantada... 
Tinha, dizia bem ... estava por terra !!!... 😟😔

Rapidamente encostou a bicicleta à cerca e gritou, deslocando-se em passo rápido para as traseiras da casa...

- Jonas vais apanhar !!!... destruiste a minha flor !!!

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Fábula Amigos dos Animais


Uauauauauauau…

Elvis: Vê se te calas pá ! O que se passa, desde ontem que não me deixas dormir.

Black: Nem fazes ideia o que me aconteceu.

Elvis: Conta lá, sempre quero ouvir o que te anda a deixar desde ontem tão preocupado.

Black: O meu dono ontem foi a casa de uns amigos que têm uma cadela parecida comigo, loura… muita gira. Vivem num apartamento pequeno, não há espaço sequer para dar uma corrida. Ela confessou-me que anda com problemas nos músculos e nas articulações, porque coitadinha dorme num alcofa na cozinha, ao pé do frigorífico e não consegue fazer um pouco de ginástica, correr.

Elvis: E ela deu-te bola ?

Black: Bola ???

Elvis: Sim, bola !!! Não me digas que não sabes o que é isso. Interessou-se por ti !? Vai possibilitar chegaras-te a ela e haver qualquer coisa entre vocês, quando o teu dono voltar lá a casa dos amigos !?

Black: Não entrei nesses pormenores com ela. Soube que os donos lhe tinham feito uma operação para não poder ter filhos. Compreendes não é ?! O apartamento é pequeno. Eles têm um miúdo e a mulher está grávida e ainda a têm a ela.

Elvis: Puta que os pariu. Então tiraram-lhe o prazer de poder um dia vir a ter filhos e ser mãe ? Grandes cabrões !!! Mas pelos vistos, ficaste a gostar dela, entendi. Apaixonaste-te foi o que foi.

Black: Acho que sim. Gostava de a trazer para o pé de mim, mesmo sabendo que não pode ter filhos.

Elvis: Mas olha lá, tu sabes que nós não temos vontade própria. Mesmo que a queiras trazer para o pé de ti, não és tu que decides isso. Além disso, como é que fazes mostrar ao teu dono que gostas da… como é que ela se chama mesmo ?

Black: Simone !

Elvis: Como é que fazes o teu dono entender que gostas da Simone e queres que ela venha para ao pé de ti ? Estás a ver, não é !

Black: Tens razão. Esta vida de cão que levamos !!!

Elvis: Tenho sempre razão. Sabes uma coisa ? A minha dona anda muito estranha. Trata-me muito bem, mas agora obriga-me a lamber-lhe a mão. Põe um pouco de açúcar e depois manda-me lamber. “Elvis lambe !” diz ela. Todos os dias é isto pelas 9 horas da noite.

Black: Acho que ela vai começar pela mão e depois prepara-te. Eu outro dia bem vi, o meu dono alugou para aí uns filmes esquisitos de pessoas e animais. Eu acho que os seres humanos têm comportamentos muito aberrantes. Não lhes chega terem-se uns aos outros, homens e mulheres. A sociedade deles está mesmo decadente.

“Black ! Black !....”

Black: Olha o meu dono está a chamar-me para ir à rua. Estou aflito desde as 5:00 da manhã. Aqui enfiado nesta varanda onde mal me posso mexer.

Elvis: E eu ?! Bolas ! Ontem acabei por urinar aqui. Se a tua varanda é pequena, imagina a minha. Com a tralha toda do estendal e dos vasos com as plantas. Olha vinguei-me naquela planta ali. Levantei a perna e cá vai disto. Acho que vai morrer. Ehehehehe !!
Olha lá, antes de te ires embora. O teu dono quando vais à rua leva um saco plástico para apanhar a merda que tu fazes ?

Black: Qual quê !? Vai para o outro lado do bairro para eu defecar à vontade junto aos prédios amarelos. Sabes quais são ?! Os passeios andam todos cagados, mas pelos vistos ninguém se importa. Nunca nos ensinaram ou arranjaram, como eles têm, as sanitas, ou lá o que é ! Acho que até saiu uma lei a obrigá-los a apanhar a nossa caca, aquela que fazemos na rua e nos passeios, mas como sabes a fiscalização em Portugal levanta-se tarde

Elvis: Mas olha podia ser pior. Se fossemos gatos castravam-nos logo ! Afinal ainda temos donos nossos amigos.

“Black !... então, já te chamei duas vezes !

Black: Bem até logo. Vou arrear o calhau. Ehehehehe !!!!

sábado, 29 de julho de 2017

A Contar pelos Dados (3) - O coração batia intensamente



“O seu coração pulsava. Começara a acontecer, desde que a vira no dia anterior. Mas hoje, ele queria mais. Aproximou-se dela e entregou-lhe a flor que trazia na mão. Paula olhou para Luis, pegou no malmequer e começou a tirar pétala a pétala. A expressão dos olhos dela alterava-se à medida que a flor ficava despida da sua saia branca. Quando terminou, olhou para ele e sorriu.

- É mesmo verdade Paula !... disse ele.

Aproximaram as bocas e inebriaram-se num longo beijo.

Depois já com as mãos dadas, foram empurrados pelo vento, até ao parque. Circundaram árvores e bancos de jardim. Mais um beijo e outro, e uma corrida a ver quem chegava primeiro a sítio nenhum.
A fome chegou. Ali mesmo no parque havia um restaurante. Sentaram-se e comeram de faca e garfo.”

António acordara. De repente lembrara-se do seu sonho. Voando dentro de um balão, talvez de Júlio Verne. E lá de cima vira, numa volta ao Mundo, a Paula e ele numa floresta. Vira umas pétalas de uma flor serem varridas pelo vento... o coração batia intensamente... e de repente uma voz...

- António ! Estás atrasado filho !!!
- Já tens a mala pronta para escola ?

Há quantos anos não ouvia a sua Mãe !
Uma lágrima correu face abaixo.

terça-feira, 11 de julho de 2017

A Contar pelos Dados (2) – Afinal eu era um cão


Não era um bom dono e vivia numa barraca com rodas. A vida tinha-lhe corrido mal. Perdera o emprego e decidiu gastar a massa numa “roulotte”. Assentou arraiais, no parque de campismo de Monsanto e lá ia fazendo uns trabalhos por fora, e vivendo do pouco guito que lhe davam os biscates.
Não me tratava bem. Não me faltava com a comida que mantinha num depósito térmico, em cima da caravana e lá acedia através de um escada, mas não me dava muito espaço e quase que me proibiu de visitar uma cadela que vivia com a dona mesmo perto de nós. Eu acho que ele tinha uma paixoneta pela dona, mas como ela não lhe dava trela, só dava trela à cadela, achava que eu também não deveria poder dialogar com a cadelita que por sinal era um xuxu.
Um dia castigou-me e fiquei fechado dia todo na “roulotte”. Fiquei fulo e achei que tinha de pôr um “basta” na situação. Decidi vingar-me !
No dia seguinte soltou-me e quando foi trabalhar, decidi armadilhar-lhe o caminho de entrada na nossa área para quando regressasse. Arranjei uma casca de banana e coloquei-a, tapada com umas folhas, logo junto à portinhola de entrada para o nosso espaço. Havia de se estender ao comprido. Fiz mesmo cara feia de ser humano, e disse para comigo “Vais ver o estampanço que vais dar, ... mas espera e não vai ser tudo !”. Como tinha estado fechado o dia todo, aproveitei e fiz uma valente poia a um escasso metro e meio da casca da banana, tapando-a também com folhas de árvore. A armadilha estava montada.
Ao final da tarde, eu estava cá fora deitado junto à mesa e às cadeiras que ficavam ao pé da “roulotte”. Olhava para a entrada e esperava ansiosamente a sua chegada.
Finalmente chegou, e mal passou a portinhola escorregou na casca da banana e catrapum, em cima da poia !... Estava todo sujo de trampa !... 😄😄😄
Eu ladrei e saltei de alegria... e como ele fez menção de me agredir, zarpei para o café !!!

segunda-feira, 26 de junho de 2017

A Contar pelos Dados (1) - O Encontro


Ele guiava o seu Porsche descapotável, numa estrada do interior. O vento fustigava-lhe a cara e o cabelo. Uma povoação aproximava-se rapidamente. Um cheiro a café vindo de algures fê-lo abrandar e olhar em redor. A 50 metros avistava-se um cruzamento e numa das esquinas um pequeno quiosque, com três mesas e umas quantas cadeiras, debaixo de uns chapéus de Sol, convidava a parar e a beber um café. Estacionou o carro na rua do lado contrário. Tirou o blusão do banco traseiro, colocou-o ao ombro e dirigiu-se para o quiosque. Sentou-se numa das cadeiras e virou-se para a empregada e disse:

- Traga-me um café por favor !

O café foi servido prontamente. Agradeceu e começou a bebê-lo, paulatinamente, como se tivesse todo o tempo do Mundo. Apesar de um pouco atrasado, o carro que detinha permitia-lhe recuperar os minutos que eventualmente perdesse, enquanto ali estivesse resfatelado, a saborear aquela bebida secular.
Levantou-se, pagou, encaminhou-se de novo para a viatura, e sentou-se de novo, ao volante. Ligou o motor e arrancou devagar. A limitação de velocidade dentro das zonas povoadas não era propícia a exageros.
No cruzamento seguinte, reparou numa florista. Parou com duas rodas em cima do passeio, mas de maneira que não prejudicasse o trânsito ou os traseuntes e avançou para a loja.

- Boa tarde ! Gostaria que me arranjasse uma dúzia de rosas !

Passaram uns 5 minutos. A florista dedicou-se a fazer um trabalho bem profissional com um arranjo e entregou-lhe as flores. Pagou e saíu.

Colocou o blusão no banco de trás, e as rosas ao lado. Ligou o carro e carregou no botão para a capota subir. Agora teria de ganhar algum tempo. Os 30 minutos de café e de flores, fariam com que tivesse de acelerar um pouco, aquela espectacular máquina. Entrou na auto-estrada e carregou pura e simplesmente  no “prego”. Rapidamente atingiu os 200km. Era 19:00 e tinha de estar no destino às 20:00. Ligou o rádio.

- ... Ao final desta primeira parte, Portugal vence por dois a zero a equipa de Chipre. Golos apontados por Cristiano Ronaldo, de cabeça, aos 10 minutos, a cruzamento de Quaresma e, por João Moutinho, de livre, aos 35 minutos...

Ouviu o resultado e mudou rapidamente de posto. Não estava com pachorra para ouvir relato futebolístico ou anúncios. O posto opcional era definitivamente a “Smooth FM”. Ouvia-se Jane Monheit, aquela mulher com uma voz fantástica e com uma cara maravilhosa. Começava a anoitecer e os faróis ligavam-se. A estrada passava rapidamente.

Eram 20:00 e ao longe já se avistava a casa, na penumbra. As janelas estavam iluminadas. Ela já chegara. Estacionou, pegou no blusão e no ramo de rosas e avançou para a porta de entrada. Entrou em casa. Passou pela cozinha. Um papel branco em cima da cozinha, com um lápis ao lado, tinha escrito

“Vem ter comigo. Espero-te no banho !”

Sorriu. Subiu ao andar de cima e entrou no quarto. Despiu-se rapidamente. Entrou nú, com o grande ramo de rosas na mão, na grande casa de banho que se situava no lado direito do quarto. Paula, à luz das velas, e com o cabelo preso, estava mergulhada num banho de sais e espuma. Riu-se para João.

- Vem.... Estava ansiosamente à tua espera !
- Aqui tens são para ti !
- São lindas ! 

João entrou na banheira e beijou-a na boca. Encostaram um ao outro e olharam para cima. O tecto da casa de banho, era envidraçado e lá fora, já se via a Lua e algumas estrelas.

sábado, 6 de junho de 2015

Fábula dos Amigos dos Animais

Uauauauauauau…

Elvis: Vê se te calas pá ! O que se passa, desde ontem que não me deixas dormir.

Black: Nem fazes ideia o que me aconteceu.

Elvis: Conta lá, sempre quero ouvir o que te anda a deixar desde ontem tão preocupado.

Black: O meu dono ontem foi a casa de uns amigos que têm uma cadela parecida comigo, loura… muita gira. Vivem num apartamento pequeno, não há espaço sequer para dar uma corrida. Ela confessou-me que anda com problemas nos músculos e nas articulações, porque coitadinha dorme num alcofa na cozinha, ao pé do frigorífico e não consegue fazer um pouco de ginástica, correr.

Elvis: E ela deu-te bola ?

Black: Bola ???

Elvis: Sim, bola !!! Não me digas que não sabes o que é isso. Interessou-se por ti !? Vai possibilitar chegaras-te a ela e haver qualquer coisa entre vocês, quando o teu dono voltar lá a casa dos amigos !?

Black: Não entrei nesses pormenores com ela. Soube que os donos lhe tinham feito uma operação para não poder ter filhos. Compreendes não é ?! O apartamento é pequeno. Eles têm um miúdo e a mulher está grávida e ainda a têm a ela.

Elvis: Puta que os pariu. Então tiraram-lhe o prazer de poder um dia vir a ter filhos e ser mãe ? Grandes cabrões !!! Mas pelos vistos, ficaste a gostar dela, entendi. Apaixonaste-te foi o que foi.

Black: Acho que sim. Gostava de a trazer para o pé de mim, mesmo sabendo que não pode ter filhos.

Elvis: Mas olha lá, tu sabes que nós não temos vontade própria. Mesmo que a queiras trazer para o pé de ti, não és tu que decides isso. Além disso, como é que fazes mostrar ao teu dono que gostas da… como é que ela se chama mesmo ?

Black: Simone !

Elvis: Como é que fazes o teu dono entender que gostas da Simone e queres que ela venha para ao pé de ti ? Estás a ver, não é !

Black: Tens razão. Esta vida de cão que levamos !!!

Elvis: Tenho sempre razão. Sabes uma coisa ? A minha dona anda muito estranha. Trata-me muito bem, mas agora obriga-me a lamber-lhe a mão. Põe um pouco de açúcar e depois manda-me lamber. “Elvis lambe !” diz ela. Todos os dias é isto pelas 9 horas da noite.

Black: Acho que ela vai começar pela mão e depois prepara-te.... Nem te digo mais nada !...

“Black ! Black !....”

Black: Olha o meu dono está a chamar-me para ir à rua. Estou aflito desde as 5:00 da manhã. Aqui enfiado nesta varanda onde mal me posso mexer.

Elvis: E eu ?! Bolas ! Ontem acabei por urinar aqui. Se a tua varanda é pequena, imagina a minha. Com a tralha toda do estendal e dos vasos com as plantas. Olha vinguei-me naquela planta ali. Levantei a perna e cá vai disto. Acho que vai morrer. Eheh !!
Olha lá, antes de te ires embora. O teu dono quando vais à rua leva um saco plástico para apanhar a merda que tu fazes ?

Black: Qual quê !? Vai para o outro lado do bairro para eu defecar à vontade junto aos prédios amarelos. Sabes quais são ?! Os passeios andam todos cagados, mas pelos vistos ninguém se importa. Nunca nos ensinaram ou arranjaram, como eles têm, as sanitas, ou lá o que é ! Acho que até saiu uma lei a obrigá-los a apanhar a nossa caca, aquela que fazemos na rua e nos passeios, mas como sabes a fiscalização em Portugal levanta-se tarde

Elvis: Mas olha podia ser pior. Se fossemos gatos castravam-nos logo. Afinal ainda temos donos nossos amigos.

“Black !... então, já te chamei duas vezes !


Black: Bem até logo. Vou arrear o calhau. Ehehehehe !!!!

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Vida dura de Treinador de Futebol

- Senhores ouvintes, junto a nós, o treinador da equipa de futebol profissional, do A.R.E.A.B., Associação Recreativa e Entretenimento de Alguidares de Baixo, Pancrácio Fagundes.
Conte-nos Mister Pancrácio o que aconteceu para que a sua demissão de treinador do futebol de Alguidares de Baixo se efectivasse esta manhã ?

- Bem, você sabe não é. Já viu algum jogador ser despedido ou pedir a demissão ?

- Pois isso é verdade, nunca foi visto.

- Sabe como é. A gente dá o litro e o meio-litro. Chegamos tarde a casa, com o perigo de levarmos nos “cornos” da patroa, para passarmos mais tempo com os “gajos”. Vamos para as “boites” com eles, por causa das aventuras com as “alternadeiras”. Preferimos ser nós os prejudicados. Eles não se podem desgastar fisicamente, connosco não faz diferença. Mandamos os tipos para a cama bem cedo, por volta das 3 da matina é o recolher obrigatório. Nós lá para as cinco chegamos a casa, muitas vezes cansados depois de levar as “piquenas” a casa.
Pé ante pé, vamos deitar para não a acordar. Você percebe ?

- Sim, mas afinal o que se passou desta vez ?

- Desta vez foi complicado. De há três meses para cá não fazia outra coisa senão ir à mesma “boite” com a equipa. Eles já queriam mudar faz muito tempo, mas andava lá uma miúda muita jeitosa, a fazer-me olhinhos. E eu, macho que sou, na semana passada deitei-lhe “os garfos”. Ela pelos vistos sabe comer com talher, gostou e pronto, a coisa deu-se.
           
- Mas foi isso que o fez apresentar a demissão ?

- Não nada disso ! Ontem ela ligou-me e disse-me que ia editar um livro, com as nossas histórias. Porra, disse eu ! Quais histórias ?
Estás a querer fazer concorrência a alguém ? Olha que eu não sou um qualquer treinador. Sou um tipo honesto, vivo muito com a família, nunca enganei a minha mulher, o que é que tu pretendes ?
Fui-me encontrar com ela, e dei-lhe um par de lambadas, em plena via pública...

- E depois ?

- Mal sabia eu que ela já tinha sido companheira do presidente da Associação, fez-lhe queixas minhas que eu lhe batia por “dá cá aquela palha”, e o Sr. Malacueco obrigou-me a apresentar a demissão. Uma chatice !
Agora estou desempregado e sem fundo de desemprego, ... mas vou fazer uma “manif” para a porta da Federação alegando assédio sexual da dita cuja.

- E é assim ouvintes da R.R.A.B. Rádio Regional de Alguidares de Baixo para a Rádio Nacional, em directo, e em colaboração com o “Subversivo da Treta”, despede-se Abelino Eucarário e o sonoplasta Albuquerque Caramelo, uma boa tarde para todos.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Histórias de Ontem (VII) – Furo em Palmela, o primeiro

A data, somente consigo atirar para antes de 1993, visto que o balcão tinha sido instalado por mim. No dia da abertura ao público, um dia de aguaceiros, dirigi-me, com a “minha” “Renault Expresso” à sucursal para a “entregar” aos responsáveis do banco.
Do nosso trabalho técnico, dependiam os computadores e todo o acesso ao sistema central do banco, através do “software” instalado nos equipamentos, bem como algumas aplicações adiministrativas, compostas de uma folha de cálculo e de um processador de texto. Este balcão, na margem sul, abria com comunicação de dados, via satélite e com telefone móvel para comunicação de voz. Um daqueles antigos monstros, pesados como o “raio”. 
A entrega correu, como normalmente costumava acontecer, bem. Eu sempre fui muito meticuloso e organizado no meu trabalho e segui as regras, para não ter surpresas.
O relatório foi assinado pelas pessoas do banco, despedi-me e saí.

Estava a começar a cair uma carga de água, quando entrei na carrinha. Dei à chave e arranquei com a viatura. Logo, nos primeiros metros senti a direcção muito presa e a fugir para um dos lados. Estranhei, não conhecia a sensação. Encostei junto a umas obras de um prédio e saí. A chuva, tinha abrandado, mas a minha roupa, casaco,  calças e camisa, começavam a ficar molhados. Olhei para os pneus e verifiquei que tinha um furo na roda dianteira, direita. O pneu estava, praticamente, vazio.

Tirei o casaco que coloquei dentro da carrinha, e preparei-me para ir buscar o pneu sobressalente e o macaco. Pois.... mas onde é que eles estavam ?!?! L
Dei uma volta à carrinha na esperança de me lembrar de um possível poiso, para tais peças.

No prédio em frente, em construção, um grupo três de pedreiros (?), dois portugueses e um africano, olhavam e começavam a sorrir, ao ver-me aflito à procura do pneu e do macaco.

Mais uma volta à carrinha. Desta vez, abri o compartimento traseiro, onde costumava ter sempre material informático, mas obviamente, nem o pneu nem o macaco estavam lá. LL

O pessoal das obras já ria.

Estão a gozar constatei, mas não vão ficar a rir-se, por muito tempo, disse para comigo. Dito isto, avancei para os operários e num tom decidido, afirmei e perguntei: - Se estão a rir, é porque sabem onde se encontram o pneu sobressalente e o macaco, desta carrinha !? Não ?
Um dos operários, olhou-me e disse: - O pneu sobressalente está debaixo da viatura na traseira, por baixo do compartimento de carga e o macaco está junto ao motor de lado !

Afastei-me com a camisa e as calças já um pouco molhadas e meti mãos ao trabalho, para acabar de me sujar, com a lama do pneu que estava molhado e sujo, debaixo da carrinha, e depois com a montagem do macaco e a substituição do pneu.

O meu primeiro furo em trabalho, grande .... !!! J

Para terminar, uma crítica quiçá fora de tempo à Renault. Colocar os pneus sobressalentes, no espaço exterior e por baixo da carrinha é muito mau. Em dias de chuva, ficam completamente sujos, e não é muito agradável, mexer neles. Além disso, estas carrinhas, tanto as Expresso, as Kangoo e outras, de carga, tem um compartimento de carga tão grande, que se lhe roubarmos um pouco, para o pneu sobressalente, não faz grande diferença.

domingo, 28 de setembro de 2014

Histórias de Ontem (VI) – Pontapé no Balde

Nem sempre as coisas correm bem, e às vezes damos connosco a passar por situações ridículas e de grande comicidade.

A situação passa-se em trabalho. Uma mudança de um departamento do Cliente do edifício da Avenida José Malhoa, para um andar na Avenida Columbano Bordalo Pinheiro. Terá ocorrido, se a memória não me falha e o meu Excel não me atraiçoa por Janeiro de 1995 dias 20, 21 e 22, possivelmente dia 22.

A mudança estava no final. As máquinas estavam no seus locais de destino e faltava somente verificar uma a uma, primeiro o “hardware”, depois todo o “software”, redireccioná-las para as impressoras de rede mais próximas, e ir dormir. A mudança durava desde o dia anterior. Embora não fossem muitos equipamentos, no entanto, e como de costume, as coisas tinham-se atrasado em termos de mobiliário, e obviamente, os computadores não podiam ficar no chão.

As senhoras da limpeza que coincidiam muitas vezes com a nossa intervenção de colocar as máquinas e de as verificar, estavam numa azáfama de limpeza. Armários, secretárias, aspirar a alcatifa, etc. O cheiro do produto de limpeza que utilizavam nos armários para retirar sujidade, entrava-nos pelo nariz dentro.

Eu andava de um lado para o outro a ajudar os meus colegas menos experientes e a garantir que no dia seguinte, dia em que eu estaria de manhã muito cedo, a entregar a nossa parte do trabalho aos responsáveis do Cliente, iria correr bem.

A alcatifa era cinzenta escuro com o logotipo do Cliente a vermelho, e a porcaria, para não dizer, a merda do balde, era cinzento também, e muito idêntico à cor da alcatifa.
Ao dobrar, aceleradamente, a esquina num armário, para ir ajudar um colega meu do outro lado da sala, não vi o balde !!! L L...
Um pontapé que fez saltar o mesmo que estava cheio de água e que se entornou, na totalidade, em cima da alcatifa

- Merda  !!! L - disse eu.

- O senhor não viu o que fez ?! – disse a senhora da limpeza, “dona” do balde.

- Deixe estar que eu apanho tudo !!! – disse eu, numa tentativa de querer remediar algo impossível de fazer.

Gargalhada geral de quem estava ao pé.

- Ainda por cima está a gozar comigo !... Apanha o quê ?!!! A água ?!!! – A senhora da limpeza irritadíssima comigo.

Quem não estava ao pé, veio ver o que se passava e ajudou na risada.

A mudança estava a correr tão bem ! L