Dá a surpresa de ser

Dá a surpresa de ser É alta, de um louro escuro. Faz bem só pensar em ver Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem (Se ela estivesse deitada) Dois montinhos que amanhecem Sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco Assenta em palmo espalhado Sobre a saliência do flanco Do seu relevo tapado.

Apetece como um barco. Tem qualquer coisa de gomo. Meu Deus, quando é que eu embarco? Ó fome, quando é que eu como?

10-9-1930 - Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995) - 123.

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sábado, 20 de outubro de 2018

Belo Canto e Vozes (III) – Barítono e Baixo

(In Wikipédia - Todos os excertos foram adaptados e algumas vezes traduzidos por Ricardo Santos) e ainda (In http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx).

Esta a terceira de três publicações que fiz para o meu anterior blogue “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades” (já apagado!), irão passar aqui de seguida. Deveriam ter vindo antes das que fiz sobre ópera, mas como “mais vale tarde que nunca”. E vamos começar por uma breve introdução e explicação.

Não sou ignorante em termos de música, mas não aprendi teoria sobre o belo canto, e sobre uma das disciplinas/artes mais bonitas que existem que é o culto da voz  humana.
Não sei muito e pesquisei sobre o belo canto e as suas vozes, para vos levar, e aí sim, é esse o meu principal intuito, a conhecer e a frequentarem, pelo menos uma vez, uma ida ao teatro para ouvirem e verem um espectáculo de ópera.

Primeiro que tudo vamos aprender o termo tessitura que é importante para continuarmos esta explicação:

Tessitura substantivo feminino
1. Música -  Disposição das notas musicais para se acomodarem a certa voz ou instrumento.
2. Figurado - Contextura; organização.

Barítono  substantivo masculino
1. Cantor cuja voz medeia entre a do baixo e a do tenor.
2. Instrumento metálico de sopro.

Baixo adjectivo
adj.
11. Cantor que dá as notas graves.
12. Corda (de instrumento) que dá sons graves.
13. Mar. Parte exterior do navio abaixo da linha de água.

Então vamos ver como se definem os barítonos e os baixos, as vozes médias e graves, respectivamente, que os homens podem ter:

Barítono Ligeiro - é o timbre mais leve entre os barítonos, de grande extensão aguda e cor clara, possui grande agilidade e é flexível dinamicamente, é conhecido no repertório francês em operetas e óperas escritas para a voz de Jean-Blaise Martin – “Barítono Martin” que criou diversos papéis em operetas e um estilo de técnica anasalada que torna o timbre mais claro e menos volumoso, o idioma francês ajuda na emissão anasalada e nas palavras pronunciadas. Sua tessitura usual é do Sol1 ao Sib3 (Dó4).

Barítono Lírico - é o timbre típico do barítono: É expressivo, igualmente timbrado, de sonoridade melódica e harmónica, dinamicamente flexível. Possui uma cor escura e aveludada, a agilidade não é espontânea, mas não é impossível. Sua tessitura usual é do Sol1 ao Sol3.

Barítono Dramático - é o timbre mais pesado dos barítonos, mais escuro e mais metálico, um timbre igualado em ambos os registos com grande amplidão sonora, com generosidade em interpretações dramáticas. Sua tessitura usual vai do Fá1 ao Sol3.

Barítono Alto ou de Carácter - é o um tipo de Barítono Dramático mais intenso e com um registo agudo seguro, é expressivo, muito metálico de grande amplidão sonora, é o barítono típico do reportório de Verdi, cheio de dramatismo e vigor. Sua tessitura usual é do Sol1 ao Lá3.

Baixo Ligeiro - é o timbre mais leve entre os baixos é mais raro e muito brilhante usado bastante em papéis “buffos” (1) ou de coloraturas em operetas francesas. O timbre é semelhante ao Baixo-Barítono, mas é mais leve de dicção clara, muito ágil e com agudos mais leves e brilhantes. Sua tessitura usual é do Fá1 ao Fá3,raramente vai do Lá3

Baixo Cantante - é o timbre típico do baixo: Igualmente timbrado em toda gama, rico em harmónicos, notavelmente expressivo e capaz de maior vocalização que o Barítono. Sua tessitura usual é do Mib1 ao Fá3.

Baixo Profundo - é o timbre mais grave e mais pesado entre todas as vozes. Muito intenso consequentemente menos igual, que atinge no registo grave uma sonoridade cavernosa e no registo agudo uma qualidade enérgica e um pouco áspera. Sua tessitura usual é do Sib-1 ao Mi3.

Baixo Superprofundo - é o timbre mais grave masculino, com um registo raríssimo, que abarca cerca de duas oitavas abaixo da media, alcançando notas muito graves, o timbre é uma continuação do baixo profundo com um registo grave muito extenso. Sua tessitura usual é do Dó-1 ao Dó3.

(1) “Buffos” são papéis de ópera característicos e de uma tipologia caricata em toda a história da opera buffa napolitana e de suas congéneres desde o “singspiel” de Hamburgo até o “vaudeville” e a “zarzuela”, os cantores buffos são primeiramente actores com “gags” e “cacoetes” que deriva da mais pura tradição da comédia “dell’ arte”, todavia, é também uma voz capaz de inflexões grotescas ou até ridículas assim como os acentos expressivos, nas mais rigorosas linhas do Bel Canto. Não exige grande extensão e beleza vocal, mas deve possuir agilidade fácil e riqueza de matizes.

Vamos aos exemplos de barítonos e baixos, dois de cada, penso ser suficiente.

Começamos com os dois para as vozes de barítonos. Primeiro da ópera “O Barbeiro de Sevilha”, de Gioacchino Rossini (1792-1868), a ária “Largo Al Factotum”, interpretada pelo Barítono John Rawnsley, no papel de Fígaro, o barbeiro.

John Rawnsley (14-12-1950) – Barítono britânico. Estudo no “Royal Northern College of Music” em Manchester, e fez a sua estreia com a ópera “Der Freischültz”, de Carl Maria von Weber (1786-1826) com a Glyndebourne Touring Opera em 1975. Cantou no papel de “Masetto” em Glyndebourne, em 1977, retornando a “Marcelo” (La Bohême), a “Fígaro” (O Barbeiro de Sevilha), e a Fígaro (Bodas de Fígaro) com a Ópera Nacional Galesa, em


Em segundo lugar, da opera “Carmen” de Georges Bizet (1838-1875), a célebre ária “Toreador”, interpretada pelo Baixo Ruggero Raimondi, no papel de Escamillo, Espada vindo da cidade de Granada.

Ruggero Raimondi (03-10-1941) - Barítono italiano. Raimondi nasceu em Bolonha, Itália. Aos quinze anos de idade ele foi ouvido por Francesco Molinari-Pradelli, que o encorajou a seguir com uma carreira de cantor lírico. Começou a estudar canto com Ettore Campogalliani e foi aceite no Conservatório Giuseppe Verdi , em Milão, aos dezesseis anos de idade. Continuou os seus estudos em Roma, sob as instruções de Teresa Pediconi e do maestro Piervenanzi. Depois de ter vencido o prémio da Competição Nacional de Novos Cantores de Ópera em Spoleto, fez sua estreia em ópera na mesma cidade, no papel de “Colline” da ópera de Giacomo Puccini “La Bohème”, no Festival dos Dois Mundos. Subsequentemente, teve oportunidade de cantar no Teatro da Ópera em Roma, quando ele foi chamado para ser substituto na papel de “Procida” da ópera “I Vespri Siciliani”. Conseguiu um enorme sucesso, sendo aclamado pelo público e pela crítica. O jovem cantor era muito tímido e acanhado, mas os directores, rapidamente, o ajudaram, tornando-se um actor de ópera.


Da ópera “O Barbeiro de Sevilha”, de Gioacchino Rossini (1792-1868), a ária “La calunnia e un venticello”, “a calúnia começa como um pequeno vento”, interpretada pelo Baixo Robert Lloyd, no papel de D. Bartolo, médico tutor de Rosina.

Robert Andrew Lloyd (Southend-on-Sea, Essex, 02-03-1940) - Educado no “Keble College”, em Oxford, estudou em Londres com o barítono Otakar Kraus, e fez a sua estreia profissional no “University College Opera” em 1969, como D. Fernando, da ópera “Leonore”, a versão mais recente de “Fidelio”. De 1969 a 1972, ele detinha o papel principal de baixo na “Sadler’s Wells Opera Company”, actualmente “English National Opera”, e de 1972 a 1982, tornou-se membro da “Royal Opera Covent Garden”.


Da ópera “O Elixir de Amor” de Gaetano Donizetti (1797-1848), a ária “Udite, O rustici !”, interpretada pelo Baixo Ildebrando D'Arcangelo  , no papel de Dr. Dulcamara.

Ildebrando D’Arcangelo (14-12-1969) – É um baixo italiano. Nativo da cidade de Pescara, Abruzzo. D’Arcangelo começou os seus estudos em 1985 no Conservatório Luisa D’Annunzio em Pescara, debaixo da orientação de Maria Vittoria Romano. De 1989 a 1991 ele cantou no Concurso Internacional “Toti dal Monte” em Treviso, onde se estreou a cantar “Cosi Fan Tutte” e “D. João” de Amadeus Mozart. Ele cantou de várias regências dos maestros, tais como, Claudio Abbado, Valery Gergiev, Christopher Hogwood, Georg Solti, Bernard Haitink, Riccardo Muti, John Elliot Gardiner, Riccardo Chailly, Myung-Whun Chung, Nikolaus Harnoncourt e Seiji Ozawa.
Cantou já no “Metropolitan Opera” em New York, no “Royal Opera House Covent Garden” em Londres, na “Opéra National” (Bastilha) em Paris, na “Lyric Opera of Chicago” em Chicago, no “Staatsoper” e no “Theater an der Wien” em Viena de Áustria, e no “Salzburger Festspielen” em Salzburgo.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Belo Canto e Vozes (II) – Soprano e Contralto

(In Wikipédia - Todos os excertos foram adaptados e algumas vezes traduzidos por Ricardo Santos) e ainda (In http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx).

Esta a segunda de três publicações que fiz para o meu anterior blogue “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades” (já apagado!), irão passar aqui de seguida. Deveriam ter vindo antes das que fiz sobre ópera, mas como “mais vale tarde que nunca”. E vamos começar por uma breve introdução e explicação.

Não sou ignorante em termos de música, mas não aprendi teoria sobre o belo canto, e sobre uma das disciplinas/artes mais bonitas que existem que é o cultivo da voz humana. Não sei muito e pesquisei sobre o belo canto e as suas vozes, para vos levar e dar, e aí sim, é esse o meu principal intuito, a conhecer e a frequentar, pelo menos uma vez, uma ida ao teatro para ouvirem e verem um espectáculo de ópera.

Dizia eu, em 7 de Julho de 2008 (blogue anterior !), a propósito do meu primeiro artigo sobre óperas e o belo canto, e focando a “Carmen” de Georges Bizet:

O meu Pai foi, sem dúvida, o causador de eu gostar um “pouco” de ópera. Durante a minha juventude, fez-me ouvir alguma música erudita e deu-me a conhecer grandes obras, de grandes compositores. Pelos finais dos anos 60, início dos 70, existia em Lisboa, uma temporada anual de ópera, levada à cena no Teatro da Trindade e interpretada por cantores portugueses. Essa temporada, eu costumava frequentar, os preços eram acessíveis para a época.
Para quem nunca ouviu ópera, posso dizer que é diferente de tudo o resto, e nesta diferença com qualidade é que está o nosso ganho. É como o jazz, ou outro género musical qualquer, deve-se ouvir com atenção, tentar entender, e não ouvir só para distrair. Não sejamos superficiais. É aquele fugir à rotina que vos venho falando desde o início deste blogue, a procura do diferente, não se esqueçam.
Não foi com "Carmen" que me estreei a ouvir ópera (foi com o "Barbeiro de Sevilha" de Giacomo Rossini), mas penso que "Carmen" é um bom exemplo para nos iniciarmos neste género musical.
Explicar-vos tecnicamente, o que é este género musical, ou o que são, os tenores, os sopranos, os barítonos e os baixos, não vou ter essa veleidade. Sou um mero melómano, curioso, como muitos de vocês, e infelizmente não tenho suficientes conhecimentos musicais para esse tipo de explicação científica.
No entanto, sei que as vozes masculinas se dividem em tenores (vozes mais agudas), barítonos (vozes intermédias) e baixos (vozes mais graves). As vozes femininas dividem-se, em sopranos (vozes mais agudas) e meio-sopranos e/ou contraltos (vozes mais graves). Depois entre cada tipo de voz existem subdivisões, por exemplo, os tenores podem ser líricos, dramáticos, absolutos, ou os sopranos podem líricos e dramáticos, os baixos podem ser “bufos”, etc.. E fiquemos por aqui…
”.

Primeiro que tudo vamos aprender o termo tessitura que é importante para continuarmos esta explicação:

Tessitura, substantivo feminino
1. Música -  Disposição das notas musicais para se acomodarem a certa voz ou instrumento.
2. Figurado - Contextura; organização.

Soprano, substantivo feminino. 2 géneros.
1. Música. A mais aguda voz humana.
2. Tiple. Cantor ou cantora que tem voz de tiple (a voz mais alta na consonância musical).

Então vamos aqui descrever como estão definidos os sopranos, que são a grosso modo, as vozes femininas:

Soprano “Soubrette” - voz brilhante e frágil da Soprano, timbre doce e forte numa tessitura média. Atinge notas altas de forma suave (baixa emissão) e com pouco esforço. Usa mais a voz de cabeça e falsetes. Registo de peito e graves pouco expressivos. Difere-se da Soprano Ligeiro por não possuir uma boa sustentação de notas, como esse outro tipo de soprano. Seu correspondente masculino é o Tenorino. Sua tessitura vai de um E3 A C5 ou C#5;

Soprano Ligeiro (ou “Soprano Leggero”, do original italiano) - é o timbre feminino mais leve dos sopranos, cuja emissão se apoia, principalmente na ressonância craniana e nas cores claras do som. A voz em geral é doce, leve e de pouco volume, ideal para personagens jovens, alegres e/ou angelicais. A coloração da voz é semelhante à do “Ultraleggero”, mas pode ter mais riqueza e uma coloração mais rica do que a destas. Quase sempre está associada aos papéis de “coloratura”. Sua tessitura usual é do E3 ao A5.

Soprano Lírico Ligeiro - é o timbre intermediário entre o “Leggero” e o Lírico, com uma menor igualdade de registos, um registo central mais rico e arredondado, mas, com menor corpo de som. Maior facilidade de emissão do registo agudo e menor aptidão ao “Legato” expressivo. Alguns sopranos “Lírico-Leggero” podem amadurecer a voz e interpretar com sucesso papéis de sopranos líricos. Sua tessitura usual é do Dó3 ao Fá5.

Soprano Lírico - é o timbre típico do soprano: é sonoro, aveludado, redondo, com uma homogeneidade ao longo dos registos. Possui uma aptidão natural ao “Legato” expressivo e rico em matizes e harmónicos. Sua maior riqueza de cores e tessitura mais centrada no registo médio ou central levam esse tipo de voz a ser muito utilizado em papéis de heroínas, como a famosa Mimi, de La Bohême. Alguns sopranos líricos, possuindo um timbre mais escuro e maior extensão grave, podem passar a cantar, na fase madura de suas carreiras, papéis para soprano “Lírico-Spintoo”, mas isso não ocorre com todas elas. Sua tessitura usual é do Dó3 ao Ré5.

Soprano Lírico-Spintoo - é o tipo de voz lírica caracterizada pela capacidade de se fazer “Spintoo” (do italiano] spingere, "empurrar"). Possui cor e peso vocais para cantar passagens dramáticas sem desgaste, não obstante não tenha as características típicas da soprano dramático, e é associada normalmente ao tenor Lírico-Spintoo. O termo define, essencialmente, a soprano lírica que canta com mais potência nos clímaxes dramáticos.
Papéis Lírico-Spintoo têm destaque sobretudo no romantismo e no verismo (*) italianos. Com o amadurecimento da voz, algumas sopranos podem interpretar alguns papéis de soprano dramático, e muitas delas chegam ao repertório Spintoo após desenvolverem uma carreira inicial como soprano lírico. Contudo, por ser relativamente raro, os papéis escritos para tal tipo de voz são frequentemente interpretados por sopranos de outras categorias, o que levou à ruína vozes de muitas sopranos líricas. Sua tessitura aproximada é do Dó3 ao Ré5.

(*) Verismo, (francês vérisme), substantivo feminino
Nome dado em Itália à escola literária e musical que, como a escola realista, reivindica o direito de representar a realidade integral.

Soprano Dramático - é o timbre mais pesado dos sopranos e é relativamente raro. Possui muita intensidade e brilho. A grande extensão prejudica a homogeneidade dos registos, mas cria efeitos impressionantes de grande impacto dramático. O timbre é geralmente encorpado, volumoso e amplo, podendo ter uma coloração mais ou menos metálica. Sua tessitura usual é do Sol2 ao Dó5.

Meio-Soprano Ligeiro - no canto, “Mezzo-Soprano leggero” é o timbre mais leve entre os “Mezzo-Sopranos”, de pouca intensidade, voz clara e ágil, está mais próxima dos sopranos, sua cor é clara com pouco metal e geralmente muito flexível. Possui uma certa desigualdade de registos. Quase sempre está associada aos papéis de “coloratura”. Sua tessitura usual é do Láb2 ao Dó#5 (Ré5).

Meio-Soprano Lírico - é o timbre típico dos “Mezzo-Sopranos”, de uma cor escura e ao mesmo tempo brilhante, tem grande aptidão ao “Legato” expressivo e igualdade de registos, a tessitura central é particularmente bonita e melancólica, a agilidade não é espontânea e não soa natural. Sua tessitura usual é do Sol 2 ao Si 4 (Dó 5).

Meio-Soprano Dramático - o “Mezzo-Soprano” dramático é o timbre mais pesado e mais potente dos “Mezzo-Sopranos”, muito intenso e com uma grande extensão, prejudicada em partes na beleza do som e na igualdade de registos. Sua tessitura usual é do Sol2 ao Si4 (Dó5).

Meio-Contralto - o “Mezzo-contralto” é o timbre intermediário entre o “Mezzo-soprano” e o contralto, trata-se do correspondente ao Baixo-Barítono, de facto é um contralto com âmbito de “Mezzo-Soprano”, e nunca um “Mezzo-Soprano” com âmbito de contralto, que no caso seria um Mezzo dramático. Sua tessitura usual é do Mib3 ao Lá5.

Vamos aos exemplos, não para todos os timbres da voz de Tenor, mas o suficiente e mais importante.

Primeiramente, a célebre ária da ópera “Carmen” de Georges Bizet (1838-1875), a “Habanera”, interpretada aqui no Teatro Nacional da Ópera de Paris, em 14 de Maio de 1980, por Teresa Berganza, uma extraordinária Meio-Soprano Lírico e até hoje, uma das maiores intérpretes de Carmen.

Teresa Berganza (16-03-1935) é uma “Mezzo-Soprano” espanhola, considerada uma das maiores de todos os tempos nas interpretações de Cherubino, Dorabella, Cenerentola ou Carmen. Berganza iniciou a sua brilhante carreira no Festival de Aix en Provence de 1957. Continua a sua carreira de recitalista no mundo inteiro e de pedagoga. Conta entre os seus alunos nomes como Maria Bayo e Jorge Chaminé.


Da ópera “La Bohême”, de Giacomo Puccini (1858-1924), a famosa ária “Si, Mi Chiamano Mimi”, interpretada em 1956, pela esplendorosa Soprano Lírico Renata Tebaldi.

Renata Tebaldi (Pesaro, 01-02-1922 – São Marinho, 19-12-2004) foi uma cantora lírica italiana, considerada uma das grandes da ópera italiana, com uma carreira extremamente bem-sucedida. Pode-se dizer que Tebaldi foi a segunda melhor soprano de todos os tempos, atrás apenas de Maria Callas.


Também de Giacomo Puccini (1858-1924), e da ópera “Madame Butterfly”, a ária “Un Bel Di Vedremo”, na voz da Soprano Ying Huang.

Ying Huang (19xx) é uma Soprano chinesa. Celebrizou-se internacionalmente, no desempenho do papel principal do filme (1995) adaptado de Frédéric Mitterrand, da ópera de Giacomo Puccini (1858-1924) “Madame Butterfly”. Continuou depois disso a sua carreira de sucessos na ribalta da ópera e dos concertos. Nascei e foi criada em Xangai e aos 18 anos começou aquilo que seriam 5 anos de estudo no Conservatório de Música da sua cidade natal.


Para terminar e da ópera “O Barbeiro de Sevilha”, de Gioacchino Rossini (1792-1868), a ária de Rosina “Una Voce Poco Fa”, interpretada pela Meio-Soprano Lírico Beverly Sills.

Beverly Sills (25-05-1929 – 02-07-2007) foi uma soprano norte americana destacada especialmente em óperas do Bel Canto e do romantismo francês e italiano. Nos anos 1960 e 70, tornou-se a mais popular cantora de ópera dos Estados Unidos da América.

sábado, 25 de agosto de 2018

Belo Canto e Vozes (I) - Tenor

(In Wikipédia - Todos os excertos foram adaptados e algumas vezes traduzidos por Ricardo Santos) e ainda (In http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx).

Esta a primeira de três publicações que fiz para o meu anterior blogue “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades” (já apagado!), irão passar aqui de seguida. Deveriam ter vindo antes das que fiz sobre ópera, mas como “mais vale tarde que nunca”. E vamos começar por uma breve introdução e explicação.

Não sou ignorante em termos de música, mas não aprendi teoria sobre o belo canto, e sobre uma das disciplinas/artes mais bonitas que existem que é o cultivo da voz humana. Não sei muito e pesquisei sobre o belo canto e as suas vozes, para vos levar e dar, e aí sim, é esse o meu principal intuito, a conhecer e a frequentar, pelo menos uma vez, uma ida ao teatro para ouvirem e verem um espectáculo de ópera.

Dizia eu, em 7 de Julho de 2008 (blogue anterior !), a propósito do meu primeiro artigo sobre óperas e o belo canto, e focando a “Carmen” de Georges Bizet:

O meu Pai foi, sem dúvida, o causador de eu gostar um “pouco” de ópera. Durante a minha juventude, fez-me ouvir alguma música erudita e deu-me a conhecer grandes obras, de grandes compositores. Pelos finais dos anos 60, início dos 70, existia em Lisboa, uma temporada anual de ópera, levada à cena no Teatro da Trindade e interpretada por cantores portugueses. Essa temporada, eu costumava frequentar, os preços eram acessíveis para a época.
Para quem nunca ouviu ópera, posso dizer que é diferente de tudo o resto, e nesta diferença com qualidade é que está o nosso ganho. É como o jazz, ou outro género musical qualquer, deve-se ouvir com atenção, tentar entender, e não ouvir só para distrair. Não sejamos superficiais. É aquele fugir à rotina que vos venho falando desde o início deste blogue, a procura do diferente, não se esqueçam.
Não foi com "Carmen" que me estreei a ouvir ópera (foi com o "Barbeiro de Sevilha" de Giacomo Rossini), mas penso que "Carmen" é um bom exemplo para nos iniciarmos neste género musical.
Explicar-vos tecnicamente, o que é este género musical, ou o que são, os tenores, os sopranos, os barítonos e os baixos, não vou ter essa veleidade. Sou um mero melómano, curioso, como muitos de vocês, e infelizmente não tenho suficientes conhecimentos musicais para esse tipo de explicação científica.
No entanto, sei que as vozes masculinas se dividem em tenores (vozes mais agudas), barítonos (vozes intermédias) e baixos (vozes mais graves). As vozes femininas dividem-se, em sopranos (vozes mais agudas) e meio-sopranos e/ou contraltos (vozes mais graves). Depois entre cada tipo de voz existem subdivisões, por exemplo, os tenores podem ser líricos, dramáticos, absolutos, ou os sopranos podem líricos e dramáticos, os baixos podem ser “bufos”, etc.. E fiquemos por aqui…
”.

Primeiro que tudo vamos aprender o termo tessitura que é importante para continuarmos esta explicação:

Tessitura, substantivo feminino
1. Música -  Disposição das notas musicais para se acomodarem a certa voz ou instrumento.
2. Figurado - Contextura; organização.

Tenor (ô), substantivo masculino
1. Voz de homem mais alta que a de barítono; 2. Cantor que tem esta voz.

Então vamos aqui descrever como estão definidos os tenores, que são a grosso modo, as vozes mais agudas que os homens podem ter:

Tenorino -  é um tipo de Tenor Ligeiro que apresenta pouca força de timbre e facilidade incrível para alcançar notas altas. É a forma mais aguda do tenor ligeiro, podendo atingir tons muito agudos sem recorrer a falsete. Difere-se do Tenor Ligeiro por não possuir uma boa sustentação de notas. Em geral crianças e adultos do sexo masculino que possuem voz fina, mesmo ao falar, são tenorinos.

Tenor Ligeiro - é o timbre de tenor de voz mais leve e menos viril, de pouca intensidade e tessitura muito aguda, também é o mais ágil entre os tenores, devido à falta de intensidade ele é compensado com uma grande facilidade de agilidade e flexibilidade. É o tipo de tenor encontrado em óperas de Bellini, Donizetti e Rossini. Sua tessitura usual é do Dó2 ao Ré4
(Fá4).

Tenor Lírico Ligeiro - é o timbre intermediário entre o Tenor Ligeiro e o Tenor Lírico uma voz redonda e suave de menor consistência e com uma qualidade sonora agradável e acariciante. Esse timbre é muito cotado para papéis bufos e cómicos. Sua tessitura usual é do Dó2 ao Ré4.

Tenor Lírico - é timbre típico do tenor: é apaixonado, expressivo e sensual, aveludado e redondo que lembra o timbre do violoncelo. Possui uma notável igualdade de registos e uma beleza extraordinária nos “legatos” (limites), cuja emissão se torna espontânea. Sua tessitura usual é do Dó2 ao Dó4.

Tenor Lírico “Spinto” - é timbre lírico com características do tipo de voz “Spinto” [do italiano “spingere” (empurrar)], que lhe permite cantar passagens dramáticas e de orquestração pesada sem desgaste, embora não seja um Tenor Dramático. É de timbre mais denso e encorpado, com registo central intenso e geralmente amplo em volume. Embora possua características próximas da do Tenor Lírico, a cor do timbre é mais escura ou metálica e, pelo volume e “squillo” (anel) da voz, pode cantar linhas vocais vigorosas. É o típico tenor dos heróis de Verdi e seus contemporâneos e do verismo (*) italiano, geralmente sendo usado em papéis que exigem grande carga expressiva ou caracterizados pelo vigor ou pujança. Sua tessitura usual é do Lá1 ao Dó4.

(*) Verismo, (francês vérisme), substantivo feminino
Nome dado em Itália à escola literária e musical que, como a escola realista, reivindica o direito de representar a realidade integral.

Tenor Lírico Dramático - é o timbre intermediário entre o Tenor Lírico e o Tenor Dramático. Isto é, mantém as características dos dois timbres, distinto do Lírico-“Spinto” que nada mais é que um lírico mais encorpado e pujante. É mais intenso que o Lírico-“Spinto”, mais metálico, mantém uma nuance mais austera e uma grande extensão, um timbre de cor escura e possui uma naturalidade madura. O timbre do Lírico-Dramático causa uma grande confusão com o Lírico-“Spinto”, por possuir mais ou menos as mesmas cores e cantar quase sempre o mesmo repertório. Dos dois timbres os papéis exigem passagens líricas e dramáticas, evidentemente os Lírico-“Spintos” tem maior facilidade nas passagens líricas e maior propensão ao “legato” (limite) e nuances líricas, como o papel de Cavaradosi que exige muito lirismo nas suas árias. Já o Lírico-Dramático tem maior propensão e passagens declamativas e de dramatismo irrompidos como Radamés em Aída, ou Calaf em Turandot. Sua tessitura usual é do Lá1 ao Si3 (Dó4).

Tenor Dramático - é um timbre raro e muito intenso de cor metálica robusta, às vezes um pouco áspera, uma voz com muito volume e uma extensão excepcional, assim como o soprano pode apresentar diferentes padrões de vozes como uma voz metálica com grande potência no registo agudo, chamado de Tenor Dramático “Squillante” como Jussin Björling e Richard Tauber, é também o tipo mais ágil nomeado às vezes de Tenor Dramático “d’agilitá” (agilidade), também temos uma voz mais aveludada e redonda, com um timbre escuro e de grande amplidão sonora no registo central, chamado de Tenor “di Forza”. Sua tessitura usual é do Lá1 ao Si3 (Dó4).

Tenor Absoluto é um tipo de tenor que possui grande extensão e facilidade de interpretação de todo repertório para tenor. Como Plácido Domingo que já cantou inúmeros papéis para tenor, desde o repertório para Tenor Ligeiro como o Conde de Almaviva no “O Barbeiro de Sevilha” até aos papéis de Heldentenor, como “Siegfried e Parsifal”.
Na maioria das vezes os tenores que se arriscam nessa categoria são Tenores Líricos e Lírico-“Spintos” maduros, com anos de experiência em palco. Este tipo de tenor deve ter a sensibilidade para interpretar papéis tão complexos e de diferentes caracteres, deve ter no mínimo os principais papéis Italianos de Puccini e Verdi, os papéis franceses de Gonoud, Bizet e os papéis alemães de Wagner, Strauss, Weber. Também há alguns que se arriscam no repertório russo de Tchaickovski, Glincka, Moussorgsky. E os papéis de agilidade de Mozart, Donizetti, Bellini e Rossini. Cita-se Plácido Domingo porque as suas interpretações são sempre convincentes independentemente do repertório, o seu timbre é muito amplo e a cor baritonal. A tessitura usual é quase sempre do Sol1 ao Dó4.

Vamos aos exemplos, não para todos os timbres da voz de Tenor, mas o suficiente e talvez o mais importante.

Primeiramente, vamos ouvir um Tenor Lírico numa excelente ária de ópera, da ópera “La Bohême”, de Giacomo Puccini (1858-1924), interpretada por Robert Alagna, a célebre ária “Che Gelida Manina” (Que mão gelada ou que mão tão fria), gravada em Dezembro de 1995, no teatro Ópera da Bastilha, em Paris, e onde o personagem Rudolfo (poeta) pega na mão de Mimi “…che gelida manina”, conta-lhe quem é, o que faz, e se apaixona por ela.

Roberto Alagna (07-06-1963) é um tenor lírico descendente de italianos. Nasceu em Clichy-sous-Bois, Seine-saint-Denis, em França.
Nasceu de uma família de emigrantes sicilianos e quando novo cantava e ganhava à gorjeta em “cabarets” parisienses. Influenciado por filmes do grande tenor Mario Lanza, mas também por muitas gravações de tenores históricos, ele trocou o canto “pop” pelo canto de ópera, mas ao princípio muito auto-didacta.


De seguida, o exemplo de um Tenor Absoluto numa ária de ópera, da ópera “Os Palhaços”, de Ruggero Leoncavalo (1858-1919), interpretada por Luciano Pavarotti, a célebre ária “Vesti La Giubba”, onde Cânio, director da companhia ambulante, fala dele próprio e se diz Palhaço em vez de Homem que enfarinha a cara e veste o gibão, para que o público ria e pague e se o Arlequim te rouba a Columbina, ri, ri, Palhaço, que todos te aplaudirão.

Luciano Pavarotti (Módena, 12-10-1935 — Módena, 06-09-2007) foi um cantor tenor absoluto italiano, grande intérprete das obras de Donizetti, Puccini e Verdi, de entre outras no seu grande repertório. É reconhecido como o tenor que popularizou mundialmente a ópera. Pavarotti nasceu em Módena, no norte da Itália, filho de Adele Venturi e de Fernando Pavarotti. Em 1943, no decorrer da Segunda Guerra, a família mudou-se para o interior, dedicando-se à agricultura. O seu gosto musical foi directamente influenciado pelo seu pai, que ouvia Beniamino Gigli, Giovanni Martinelli, Tito Schipa e Enrico Caruso.


O terceiro exemplo é mais um Tenor Absoluto, o grande tenor espanhol Placido Domingo que canta aqui a ária da ópera “Carmen” de Georges Bizet (1838-1875) “La fleur que tu m’avais jetée”. Aqui o militar D. José (da brigada dos dragões de Almanza) se confessa loucamente apaixonado por Carmen (cigana). Esta para mim será a ópera ideal para quem começar a ouvir este estilo musico, porque tem uma história não desactualizada, belíssimas passagens de canto e alguns coros. Este excerto pertence a uma representação no Teatro Nacional da Ópera de Paris, com coros e orquestra do mesmo Teatro, dirigidos pelo maestro Pierre Dervaux, em 14 de Maio de 1980.

José Plácido Domingo Embil (Madrid, 21-01-1941) é um tenor e maestro espanhol. Plácido Domingo nasceu em Madrid, filho dos cantores de zarzuelas Plácido Domingo e Pepita Embil. Conhecido na sua família como "El Granado", por cantar desde muito pequeno a canção Granada, de Agustín Lara. Em 1949, a sua família mudou-se para a Cidade do México a fim de trabalhar onde iniciou os seus estudos de piano. Tempos depois, foi admitido na Escola Nacional de Artes e no Conservatório Nacional de Música da capital mexicana, estudando piano e regência.


No último exemplo, temos um Tenor Dramático, numa das mais belas passagens de canto de todos os tempos. Falo-vos da ária “Celeste Aida”, da ópera “Aída” de Giuseppe Verdi (1813-1901). Ouvi esta mesma ária, que aqui vamos trazer, pela primeira em disco há mais de 30 anos. No papel de Radamés, capitão da guarda no antigo Egipto, está um fabuloso tenor canadiano Jon Vickers.

Jonathan Stewart Vickers (29-10-1926 - 10-07-2015) é mais conhecido com o nome profissional Jon Vickers, é um tenor aposentado. Nasce em Prince Albert, Saskatchewan, Canadá. Em 1950 ganha uma bolsa para estudar ópera no Conservatório Real de Música em Toronto. Em 1957, Vickers associa-se ao Royal Opera House, Covent Garden e em 1960 ao Metropolitan Opera. Ele torna-se mundialmente famoso pelas suas performances de papéis Alemães, Franceses e Italianos. Ele tinha uma voz de tenor dramático muito poderosa, que era muito bem usada em papéis Wagnerianos.

sábado, 29 de abril de 2017

O Trovador de Giuseppe Verdi

É a última ópera que vou apresentar. O motivo de mostrar aqui este género musical foi criar a vontade em todos de ouvirem com prazer este tipo de música.


 Mais uma célebre Ópera, obrigatória conhecer.

A última escolha erudita, recai sobre a ópera de Giuseppe Verdi, “O Trovador”.

Resumo da história desta Ópera

A acção decorre em Aragão e Biscaia em começos do século XV, e, antes de fazermos um breve resumo do 1º acto, achamos por bem referir alguns factos do enredo, anteriores ao início da acção, que irão torná-la mais compreensível.
O velho Conde de Luna teve dois filhos, quase da mesma idade, que foram visitados por uma Cigana, que se terá debruçado sobre o berço do mais jovem. A Cigana é presa e, como a saúde da criança começasse a deteriorar-se, o velho Conde conclui que a Cigana a tinha enfeitiçado e manda queimá-la numa fogueira. Açucena, filha da Cigana, assiste à morte da mãe e jura vingar-se, raptando o filho mais novo do Conde para o lançar nas chamas da fogueira. Só que, perturbada pela emoção, Açucena engana-se e, em vez do filho do Conde, lança às chamas o seu próprio filho. Decide então criar como seu o filho do Conde, ao qual dá o nome de Manrico. Manrico, o Trovador.
Quando a acção se inicia, o velho Conde já morreu sucedendo-lhe o seu filho mais velho como o novo Conde de Luna.

1º. Acto

Começa no átrio do Castelo de Aliaferia, perto dos aposentos do Conde onde os Guardas estão alerta para capturar um Trovador que tem vindo fazer serenatas à Duquesa Leonora, a quem o Conde ama sem ser correspondido. Para passar o tempo, os Guardas pedem a Ferrando, o Comandante, que lhes conte a história do irmão do Conde - o que Ferrando faz entoando uma balada. Mais tarde, nos jardins do Castelo, numa escadaria que conduz aos aposentos de Leonora, a Duquesa confessa à sua aia Inês estar apaixonada por um Cavaleiro que se sagrou campeão num recente torneio. Leonora sabe que esse amor é correspondido já que todas as noites esse Cavaleiro-Trovador tem vindo cantar sob a sua janela. Quando Leonora e Inês se retiram para o interior do Castelo, chega aos jardins o Conde de Luna, no preciso instante em que se ouve, ao longe, a voz do Trovador. Acorrendo ao apelo, Leonora regressa e, tomando o Conde pelo Trovador, cai nos seus braços. É então que surge Manrico, que revela a sua verdadeira identidade, e que diz ter sido forçado a exilar-se em Aragão por ser partidário do Príncipe da Biscaia. O Trovador e o Conde batem-se em duelo e Leonora desmaia.

2º. Acto

Desenrola-se no acampamento dos Ciganos onde Açucena conta a Manrico aquilo que se passou com a sua mãe, morta pelo velho Conde de Luna, ao mesmo tempo que lhe revela os seus planos de vingança. Açucena diz ainda ter ficado surpreendida por Manrico ter poupado a vida ao jovem Conde quando o enfrentou no duelo, ao que Manrico responde "não ter sido capaz de o fazer, como se uma voz misteriosa lhe dissesse para não desferir o golpe mortal". A conversa é interrompida pelo chegada dum mensageiro do Príncipe da Biscaia. Nessa mensagem o Príncipe ordena a Manrico que assuma o comando das tropas que defendem a Fortaleza de Castellor. Mas o mensageiro é também portador duma outra notícia: acreditando na morte do Trovador, Leonora decidiu entrar para um Convento. É no claustro desse Convento que se passa a última cena do 2º Acto.
Aí chega o Conde de Luna com alguns dos seus homens decidido a raptar Leonora antes que ela faça os seus votos. Só que, antes que o Conde consiga levar avante o seu intento, chega o Trovador com os seus homens, e o Conde é repelido.

3º. Acto

Passa-se na Fortaleza sitiada de Castellor.
Fora da Fortaleza, os Soldados do Conde de Luna trazem à sua presença uma Cigana encontrada a rondar pela vizinhança. O Conde reconhece Açucena, a Cigana que ele julga ter morto o seu irmão mais novo, e ordena que ela seja morta na fogueira.
No interior da Fortaleza prepara-se o casamento de Manrico e Leonora, uma cerimónia que é interrompida pela notícia de que Açucena foi capturada pelos sitiantes e que irá ser queimada numa fogueira. Desesperado, Manrico desembainha a espada e parte em defesa daquela que ele julga ser a sua mãe.

4º. Acto

Evolui no interior da Torre do Castelo de Aliaferia onde Manrico e Açucena estão aprisionados numa das masmorras aguardando o momento de serem executados. Leonora vai procurar o Conde, determinada a salvar o Trovador, seja qual for o preço que tenha de pagar. É assim que diz aceitar casar com o Conde desde que ele mande libertar Manrico e Açucena. O Conde aceita a proposta e Leonora toma um veneno que trazia escondido. Só depois procura o Trovador para o informar de que, ele e a mãe podem partir em Liberdade. Mas o veneno já está a fazer efeito, e Leonora morre nos braços de Manrico. O Conde chega e ordena, de imediato, a execução do Trovador, obrigando a Cigana a assistir à sua morte de uma das janelas da Torre. É só depois da morte de Manrico que Açucena revela a verdadeira identidade do seu suposto filho, dizendo ao Conde de Luna que "ele acabou de matar o seu próprio irmão".


Personagens de O Trovador

Conde de Luna ……………………………….…….Barítono
Leonora, Condessa de Sargasto …………………..Soprano
Açucena, cigana …………………….……………...Soprano
Manrique, trovador ………………….……………..Tenor
Fernando, aio do Conde ………….……………….Baixo
Inês, aia de Leonor .……………….……………….Soprano
Ruiz, guerreiro ……………………………………...Tenor
Um cigano …………………………………………..Baixo
Um mensageiro …………………………………….Tenor

Soldados, ciganos, monjas, etc.

Do autor Giuseppe Verdi, … (excertos)

Nascido a 10 de Outubro de 1813, na aldeia de Roncole (Busseto / Parma), desde muito começou a demonstrar uma inequívoca propensão musical. Em criança, Verdi ficava boquiaberto a ouvir os músicos ambulantes e os cegos tocadores de sanfona (instrumento musical de corda friccionada), que vagueavam por estas zonas. Filho de família pobre, para a qual o dinheiro chegava à rasa para o seu sustento, valeu-lhe um músico retirado, chamado Biastrocchi que fazia de organista na freguesia que o iniciou na arte da música. Por essa altura, morreu nas redondezas um certo sacerdote em cujo espólio, figurava velha espineta (espécie de cravo, instrumento com teclado, idêntico ao cravo e ao piano), meio desmantelada, que o pai de Verdi comprou por dez reis de mel coado e que um tal Estêvão Cavaletti - primeiro admirador de Verdi – consertou de graça, em 1821, dando-se, unicamente, por satisfeito “com a boa disposição que o pequeno mostrava para aprender a tocar o instrumentos”. Três anos depois, Verdi já substituía o professor Biastrocchi, a tocar no órgão da igreja. Seu pai, no entanto, decidiu mandar José (Giuseppe) Verdi para a escola, em Busseto. A partir dessa data, todos os Domingos e dias santos, chovesse ou fizesse Sol de rachar, José palmilhava duas vezes o caminho para ir tocar o órgão da velha igreja paroquial de Roncole, sua terra natal.

O poema de Cammarano – o seu canto de cisne – era, propriamente, a transposição para acena lírica de um drama de António Garcia Gutierrez (183-1884), “El Trobador”, por via do qual seu autor conheceu a celebridade repentinamente e de simples soldado raso foi guindado a dramaturgo e poeta de eleição, tendo vindo a morrer Director da Biblioteca Nacional de Madrid, aos 71 anos, universalmente reputado, como um dos mais ilustres representantes do drama romântico do país vizinho. “El Trobador” foi a sua peça de estreia e foi representada em 1836, tinha Garcia Gutierrez 23 anos e não 17, como geralmente se diz, na esteira de Pougin.
O enredo da peça não é verosímil, mas o entrechocar de sentimentos postos em jogo é de um molde a obterem-se situações da maior intensidade dramática. Daí o êxito clamoroso que o dramalhão obteve, obrigando as nossas bisavós a encharcar lenços sobre lenços no enxugo das lágrimas que borbulhavam torrencialmente, acompanhadas por soluços de cortar o coração.

Texto extraído e adaptado de:
Colecção "Ópera", Volume 25, Direcção Mário de Sampayo Ribeiro, Editor Manuel B. Calarrão, Lisboa, Novembro de 1948, Preço 5$00.

DVD indicativo:


Trechos Musicais

1º. Acto

Maria Jose Siri (Leonora), Soprano, ária “Tacea la notte placida”


2º. Acto

Anvil Chorus, Coro da “Hungarian State Opera House


Dolora Zajick (Açucena),  Meio-Soprano, ária “Stride la vampa”


Piero Cappuccilli (Conde de Luna), Barítono, ária “Il balen del suo sorriso”


4º. Acto

Leontyne Price (Leonora), Soprano, ária “D’amor sull’ali rosee”

quarta-feira, 29 de março de 2017

O Rigoleto de Giuseppe Verdi


Mais uma célebre Ópera, obrigatória conhecer.

A escolha erudita desta vez, a penúltima, recai sobre a ópera de Giuseppe Verdi, “Rigoleto”.

Resumo da história desta Ópera

1º. Acto

Salão do Palácio do Duque

A acção decorre em Mântua e arredores, no século XVI.
No palácio do Duque de Mântua há um baile. O Duque conversa alegremente sobre suas aventuras e conquistas amorosas com o seu confidente Borsa. Fala, em especial, da sua mais recente aventura. Vai para três meses que uma bela jovem é observada por ele. Mas, até aquele momento, a oportunidade que teve de vê-la foi na igreja. Ela desconhece quem ele é. O Duque conta que ela mora numa pequena vila e um homem desconhecido a visita todas as noites. Entre os convidados estão o Conde e a Condessa de Ceprano. O Duque encanta-se com a beleza da Condessa e canta sobre os seus amores momentâneos. De um lado, o Duque faz reverências à beleza da Condessa, do outro, o Conde, seu marido, é ridicularizado por Rigoleto, que acaba de entrar. Em seguida entra Marullo, que reúne outros cortesãos para contar um grande segredo. O corcunda Rigoleto, o bobo da corte, tem uma amante ! A gargalhada é geral entre todos os presentes. O Duque e Rigoleto retornam. Na presença de Ceprano, Rigoleto insinua maneiras pelas quais o Duque poderia afastar o Conde e, assim, seduzir a Condessa Ceprano, sua esposa. Rigoleto, quando chega a ponto de sugerir que o Conde fosse executado, o irado Ceprano, irrita-se num impulso de desafiá-lo para um duelo. Outros convidados demonstram repúdio e desprezo pelo repugnante e debochado Rigoleto. Nesse momento, o Duque, mostra-se irritado. De repente, surge o Conde de Monterone, que acusa energicamente o Duque de Mântua de ter desonrado sua filha. Rigoleto, numa atitude desprezível, zomba do infeliz homem, imitando Monterone. Este jura vingança e amaldiçoa Rigoleto pela atitude indigna, ao rir da mágoa de um pai. Rigoleto, nesse momento, mostra-se perturbado e com medo. Todos ficam irritados com Monterone, por ter acabado com a festa.

2º. Acto
É noite. Beco escuro entre a casa de Ceprano e Rigoleto.
Rigoleto recorda a maldição de Monterone com uma sensação estranha, talvez um mau pressentimento. Aproxima-se Sparafucile, oferecendo os seus serviços, como assassino profissional. As suas vítimas são atraídas a sua casa, pela irmã, Madalena. Rigoleto recusa tais serviços, mas aquele encontro fá-lo reflectir. Só, Rigoleto recorda a sua vida, as humilhações pelas quais já passou por ser aleijado e bobo da corte. Somente o amor de sua filha, Gilda, o torna mais terno e mais humano. Encontro de Gilda e Rigoleto. Rigoleto está perdido em pensamentos. Ela pede que o pai conte sobre o seu passado, deseja saber o nome da sua mãe. Rigoleto fala das suas desgraças e do amor perdido. Gilda é a única alegria que tem. Energicamente, diz para Gilda não sair jamais de casa sózinha e reforça o pedido à governanta. Pede a Giovanna que esteja sempre atenta à filha. Rigoleto sai e, sem ser visto, o Duque chega. Suborna Giovanna para deixá-lo entrar. Gilda encontra-se apaixonada pelo Duque, que é belo e jovem e que ela acredita, ingenuamente, ser um estudante. Gilda nunca contou ao pai sobre esta paixão. Nesse encontro, o Duque faz-lhe juras de amor. Gilda está encantada e indefesa pelo amor. Ouvem-se os passos de Ceprano e dos outros.
O Duque, que receia ser descoberto, pensa em fugir. No escuro, Ceprano, Marullo e outros cortesãos encontram-se com o objectivo de raptar a amante de Rigoleto. Rigoleto chega e pensa que quem está sendo levada é a Condessa de Ceprano, com os olhos vendados. Ele participa da acção ajudando a segurar a escada. Quando partem, Rigoleto tira a venda dos olhos. Tarde demais. Lembra angustiado da maldição de Monterone.
3º. Acto
Palácio do Duque
O acto começa com o Duque desolado por não ter ainda tido notícias do seu anjo. O Duque descobriu que Gilda foi raptada. Entra em desespero; deseja encontrá-la para confortá-la. Os cortesãos, com sabor de vitória, contam como prenderam a amante do corcunda. Rigoleto aparece demonstrando indiferença, mas no seu íntimo reina um enorme desespero para encontrar sua filha. Sem querer, com a chegada de um pajem, ele descobre que o Duque está com Gilda. Totalmente fora de si, Rigoleto tenta forçar seu caminho até ao Duque. Ele é afastado e, nesse momento, roga para que ela seja liberta. Gilda, em lágrimas, é levada até junto do pai. Ela confessa sua ligação amorosa com o Duque e que lhe havia tirado a honra. Monterone, ao ser conduzido à prisão, respinga contra a impunidade do Duque. Entretanto, Rigoleto jura que haverá sim, uma vingança. Não existem outros pensamentos para ele, mesmo com as súplicas de Gilda, pois seu único motivo a partir de agora é vingar-se.
4º. Acto
Uma hospedaria afastada da cidade. É noite.
Rigoleto, que havia pago a Sparafucile para assassinar o Duque, vai com Gilda até ao local onde poderiam observar tudo que se passa dentro da casa. Gilda, ao longe, vê o Duque, disfarçado, indo ao encontro de mais uma de suas aventuras amorosas. O Duque canta,  cinicamente, a canção que expressa seu desprezo pelas mulheres. Enquanto isso, Rigoleto e Sparafucile planeiam o seu assassinato. Madalena é chamada e namora com o Duque. Gilda não tem como evitar a cena do Duque com Madalena, pois é forçada a ver a cena. O Duque diverte-se com Madalena, cortejando-a. Gilda amargura-se com as sombrias ameaças de Rigoleto. Madalena, com pena do jovem, tenta convencer o irmão, Sparafucile, a matar outra pessoa em vez do Duque de Mântua. Rigoleto vai-se embora e pede para que a filha saia da cidade. Gilda retorna, pois fica sabendo dos planos para o Duque e resolve sacrificar-se pelo amado. Ela vai ao encontro de Sparafucile, que se esconde atrás de uma porta aguardando com uma faca o momento para executar o assassinato. A porta abre-se. Tudo está escuro. A vítima está escondida dentro de um saco. Muito feliz por estar concretizando sua vingança, Rigoleto está ansioso para atirar o saco ao rio, quando, para seu horror, ouve a voz do Duque, ao longe, cantarolando. Rigoleto abre o saco e vê a sua filha agonizando. Ela implora-lhe o perdão e morre. Rigoleto está transtornado, infeliz. A maldição de Monterone foi cumprida.
Personagens de Rigoleto

Duque de Mântua ………………………………………….Tenor
Rigoleto (seu bobo) ………………………………………. Barítono
Gilda (Filha de Rigoleto) ……………………………….... Soprano
Sparafucile (Espadachim) ……………………………….. Baixo
Madalena (Irmã de Sparafucile) ………………………… Meio-Soprano
Joana (Criada de Gilda) …………………………………. Meio-Soprano
Conde Monterone ………………………………………….Barítono
Conde de Ceprano ………………………………………...Baixo
Condessa de Ceprano …..………………………………...Meio-Soprano
Marullo ………………………………………………………Barítono
Borsa (confidente do Duque) ……………………………..Tenor

Do autor Giuseppe Verdi, … (excertos)

Nascido a 10 de Outubro de 1813, na aldeia de Roncole (Busseto / Parma), desde muito começou a demonstrar uma inequívoca propensão musical. Em criança, Verdi ficava boquiaberto a ouvir os músicos ambulantes e os cegos tocadores de sanfona (instrumento musical de corda friccionada), que vagueavam por estas zonas. Filho de família pobre, para a qual o dinheiro chegava à rasa para o seu sustento, valeu-lhe um músico retirado, chamado Biastrocchi que fazia de organista na freguesia que o iniciou na arte da música. Por essa altura, morreu nas redondezas um certo sacerdote em cujo espólio, figurava velha espineta (espécie de cravo, instrumento com teclado, idêntico ao cravo e ao piano), meio desmantelada, que o pai de Verdi comprou por dez reis de mel coado e que um tal Estêvão Cavaletti - primeiro admirador de Verdi – consertou de graça, em 1821, dando-se, unicamente, por satisfeito “com a boa disposição que o pequeno mostrava para aprender a tocar o instrumentos”. Três anos depois, Verdi já substituía o professor Biastrocchi, a tocar no órgão da igreja. Seu pai, no entanto, decidiu mandar José (Giuseppe) Verdi para a escola, em Busseto. A partir dessa data, todos os Domingos e dias santos, chovesse ou fizesse Sol de rachar, José palmilhava duas vezes o caminho para ir tocar o órgão da velha igreja paroquial de Roncole, sua terra natal.
Como em todos os compositores, mas especialmente em Verdi, que manteve sempre uma independência de técnica, as características de cada obra estão integradas no drama que descrevem; obedecem à sua forma própria, ao estado de alma, reflexo de cada drama musicado, etc. Assim, se encontramos na “Traviata”, a partitura que nos encanta pela emoção e arte de todas as suas páginas e se o drama intenso de Alexandre Dumas nos sensibiliza; no “Trovador”, as forças rítmicas, a violência e a agressividade do drama espanhol; na “Aida” a opulência dos motivos das civilizações primitivas; vamos encontrar no “Rigoleto” a pura harmonia italiana. Nesta obra, mais do que em qualquer outra, a diferença de classes, de educação, de sentimentos, dos que interpretam o drama, é tão notória tão profunda, tão diversa, que a música no seu conjunto, nos descreve as suas sensibilidades tão opostas, numa larga escala…

Texto extraído e adaptado de:
Colecção "Ópera", Volume 1, Direcção Mário de Sampayo Ribeiro, Editor Manuel B. Calarrão, Lisboa, “meados” de 1946, Preço 3$50.

DVD indicativo:

Plácido Domingo, Illeana Cotrubas, Cornell MacNeil, Isola Jones e Justino Diaz. Orquestra e Coros do Metropolitan de Nova Iorque, dirigida por James Levine, para a Editora Deustche Grammophone.


Trechos Musicais:

1º. Acto

Piotr Beczala (Duque de Mântua), Tenor, ária “Questa o quella“


Fabian Veloz (Rigoleto), Barítono, ária “Pari siamo!”


Eglise Gutierrez (Gilda), Soprano, ária “Caro Nome“

3º. Acto

Ingvar Wixell (Rigoleto), Barítono, ária “Cortigiani vil razza dannata”


4º. Acto

Mario Lanza (Sparafucile), Tenor, ária “La donne é mobile”