A paixão nua e cega dos estios, Atravessou a minha vida como rios

Sophia de Mello Breyner Andresen, A Paixão Nua, in “O Nome das Coisas”.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Lisboa (VIII) – Parque Mayer

Parque Mayer, os 80 anos da “Broadway” Portuguesa

Criado no início dos "loucos anos 20" com a ambição de ser um pólo teatral, o Parque Mayer impôs-se como centro do teatro de revista e feira popular moderna, sobreviveu à censura de Salazar e Caetano, à rádio e ao cinema, ao futebol, ao partidarismo da revolução, à televisão e às telenovelas. É um "sempre-em-pé", embora tenha atravessado várias crises. Fixou-se no imaginário nacional como a "catedral da revista", uma Broadway à portuguesa. A suposta decadência não evitou a gula disfarçada de propostas de remodelação urbanística, em crescendo desde finais dos anos 60. Uma boa ocasião para revisitar este palco maior, os seus fazedores, os seus espectáculos, o seu público, as propostas de remodelação.

Os Teatros:

Maria Vitória em 1922 (O único em funcionamento);
Variedades em 1926;
Capitólio em 1931;
ABC em 1956;

Em 1920, por ocasião duma partilha familiar, o Palácio Mayer foi comprado por Artur Brandão, juntamente com os seus anexos e parque. Este, por sua vez, vendeu-o a Luís Galhardo, tendo-se então constituído a sociedade Avenida Parque Lda. (28/5 e 30/11/1921). Galhardo, figura consagrada do meio teatral, estava interessado em criar um novo local de espectáculos. Àquele associou-se um conjunto de homens de negócios. Para tal constituiu-se a Sociedade Avenida Parque (11/2/1922 e 19/7/1924), com dez sócios, destacando-se Elias Azacot, Carlos Borges, Hipácio de Brion e Alberto Pinto Gouveia. Este último iniciaria em 1928 uma liderança familiar (embora partilhada), que prosseguiria com o seu filho Campos Figueira, o seu neto homónimo e o seu bisneto Artur Gouveia (actual responsável da sociedade sucessora, a Avenida Parque, SA).
Este espaço já detinha uma aura lúdica e boémia, pois alojara o Club Mayer, um clube nocturno de revista e jogo, durante 1918-1920. No entanto, a nova sociedade concentrou-se no Parque Mayer, tendo vendido o palacete, que se tornou no Consulado Geral de Espanha, em 1930.
O Parque Mayer foi inaugurado em 15/6/1922, substituindo e incorporando a função lúdica da Feira de Agosto (criada em 1908, na Rotunda), uma das últimas "feiras típicas" da capital, com petiscos, comércio e diversões. Inicialmente apresentou-se em instalações precárias de madeira ("barracas"), mas situava-se numa zona mais central e frequentada.
Nos primeiros anos o recinto designou-se por Avenida Parque, mas o nome antigo acabaria por impor-se correntemente. Com o tempo, transformar-se-ia num moderno e popular recinto de diversões ao ar livre, pretendendo emular o que se fazia em Paris (Luna-Park, Magic-City), Madrid (Retiro), Barcelona (Grande Parque), Sevilha, etc. (...). Mais tarde, esta componente seria ampliada e aperfeiçoada pela Feira Popular de Lisboa (1943).
Entre as diversões que passaram no Parque Mayer destacam-se as "barracas de tiros", os bailes (de fim-de-semana, ou de Carnaval), os circos Royal, El Dorado e Luftman, as "barracas" do "Pôrto de Lisboa" (miniatura animada da Ribeira) ou de "fenómenos" como a "mulher transparente" e a "mulher-sereia" e as pulgas amestradas, o labirinto e a roleta diabólica, a laranjinha, as "variedades", o jogo do quino, o jogo clandestino (para os mais aventureiros), os carrosséis e os fantoches, o Pavilhão Infantil, os "carrinhos de choque", a patinagem, os combates de boxe, a luta greco-romana e a luta livre.

Da história mais recente e de uma boa gestão camarária (?):

Em 1999 os terrenos do Parque Mayer foram comprados pela empresa “Bragaparques” por 13 milhões de euros.
Em 5 de Julho de 2005 a “Bragaparques” permutou os terrenos do Parque Mayer por parte dos lotes municipais de Entrecampos, onde se situava a Feira Popular.
A Câmara Municipal de Lisboa contratou o arquitecto Frank Gehry para elaborar um projecto de reabilitação para o espaço. Depois de pagar 2,5 milhões de euros em honorários, acabou por desistir do projecto. 
A 25 de Janeiro de 2008, a Câmara de Lisboa, já sob a presidência António Costa (PS), aprovou para a Autarquia passar a defender em tribunal a nulidade da permuta dos terrenos da Feira Popular com o Parque Mayer.
O projecto de reabilitação do Parque Mayer foi entregue ao arquitecto Manuel Aires Mateus e abrange toda a área, desde o Jardim Botânico ao Museu da Escola Politécnica.
O plano prevê a construção de um hotel com 100 quartos, um novo teatro com capacidade de 600 espectadores e a possibilidade de remodelação do Teatro Variedades.

Está tudo na mesma, pelo menos fisicamente no local!
As fotos “tristes” aqui ficam e o projecto camarário final prevê, de alguma maneira, a recuperação do histórico Parque Mayer, não como era, mas como comercialmente interessa ser.

Musicalmente, “O Homem da Gaita”, escrito, originalmente, por José Afonso, para o álbum “Com As Minhas Tamanquinhas” de 1976, e interpretado aqui, por Sérgio Godinho, para o álbum “Rivolitz” (ao vivo), de 1998 (com: Sérgio Godinho – voz e guitarra; Nuno Rafael – guitarra, voz e kazoo; João Cardoso – teclados e voz; e Pedro Gonçalves – contrabaixo e baixo eléctrico), vem lembrar que há pessoas que embora façam muita confusão aos outros pela sua diferença, são importantes. Também o Parque Mayer fez a diferença e felicidade de muitas gerações ao levar o Teatro “popular” tido como “de revista”, para todos nós os portugueses. Resistindo à censura “salazarista” durante a ditadura fascista, a qual todos já esqueceram. Muitos, felizmente, nunca viveram nela, e nem tão pouco percebem o que foi essa época.

4 comentários:

  1. Que já esteve para ser revitalizado não sei quantas vezes.
    E, até agora, nada!
    Um abraço!

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    1. Pois é assim ! Uma das capitais mais antigas da Europa e do Mundo, onde nada ou pouco é preservado :(((
      Obrigado Pedro

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  2. Tive o previlégio de conhecer e avaliar o espetacular projeto de Frank Gehry, numa revista especializada em arquitetura.
    Lamentei muito o seu abandono, a desistência.
    Gastam~se rios de dinheiro em coisas inúteis, mas investir em obras com lucro e retorno garantido, só para os inteligentes e os audazes.

    Muito meritória esta publicação, com a qual me identifico. É preciso denunciar.

    Beijinho.

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    1. Maria José
      Eu acho que nós não sabemos fazer dinheiro com a Cultura. Mas há exemplos disso em todo o Mundo, se não sabem fazê-lo, copiem os outros !!!
      Obrigado

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Eu fiz um Pacto com a minha Língua, o Português, língua de Camões e de Pessoa.