Teus olhos contas escuras, são duas Avé Marias, dum rosário d’amarguras, que eu rezo todos os dias. - Fernando Pessoa

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Guerra na Pele de João Cabral Pinto

Companheiro recente de outras guerras, o bilhar às três tabelas, o João Cabral Pinto escreveu um livro que pelos vistos começou a ser projectado e criado há muitos anos.

Pequeno excerto da entrevista efectuada pela Maria Miguel Cabo, no link da TSF, aqui !

O vídeo lá mais abaixo !

Entrevista extraida daqui !... entrevistado por Miguel Morgado

“AMOR DE MÃE, ANGOLA”. AS TATUAGENS QUE CONTAM A HISTÓRIA DA GUERRA COLONIAL

Moda, estatuto, para casar, alienação, dor ou porque beberam um copo antes. Estas são algumas das razões dos desenhos feitos nos antebraços de quem foi para a guerra colonial. A história contada em livro pela subcultura dos homens que, em teatro de guerra, não se envergonharam de escrever no corpo a palavra Mãe. Um registo fotográfico que resgata a memória coletiva de um povo no qual as imagens valem mil testemunhos. “Guerra na pele. As tatuagens da guerra colonial”, uma memória escrita.

No início eram tatuagens. Agora são retratos de tatuagens. No início era a guerra colonial. Agora são as memórias que ficaram. Ficam. Cravadas na pele. No corpo. Na mente. Na alma. Bem fundo. Para sempre. Por causa da Pátria. Pela Pátria.

As imagens, essas, não saem da cabeça, por mais esbatidas que estejam no corpo. Passaram anos. Décadas. Na pele, a maioria apresenta-se descolorida. Quase que desapareceram. Por isso, há quem tenha feito a versão 2.0 do “Amor de Mãe”, a frase icónica de quem foi para África. Porque não querem esquecer. Não podem esquecer por mais que, muitos deles, procurem não falar. Sobre o que foram lá fazer e aquilo que estamparam. Porque recuam ao tempo da guerra. E, se o fizerem, dizem: “Não durmo. Se eu lhe contar, eu já não durmo esta noite...”.

A guerra colonial está ainda bem presente na memória coletiva de um país. Pelo menos, em grande parte dele. João Cabral Pinto quis resgatar a história de Portugal pelas imagens dos desenhos nos corpos de quem foi e voltou. Depois de hesitações e negações de editoras, decidiu avançar para uma edição de autor. “Guerra na Pele – As tatuagens da guerra colonial” é o nome do livro apresentado hoje na Biblioteca Natália Correia, em Carnide, Lisboa. É mais do que um conjunto de palavras. É um registo histórico.

O objetivo? “Resgatar e preservar para memória futura um conjunto de imagens de tatuagens realizadas por militares das Forças Armadas Portuguesas durante o período da guerra colonial em África de 1961 a 1974”, lê-se nas poucas páginas do livro que merecem conteúdo escrito.

O resto são as imagens que falam por si: 146 imagens de tatuagens que representam uma síntese das 350 fotografadas, resultantes de mais de 230 entrevistas a ex-combatentes, num total de cerca de 600 abordados. Hoje, dos entrevistados, “metade já morreu”, aponta João Cabral Pinto. “As fotografias das tatuagens são a sua memória”.

O trabalho começou há 20 anos. “Os primeiros cincos foram perdidos numa avaria informática, não consegui recuperar e foi tudo ao ar”, recorda. Não desistiu. Seguiram-se 15 anos a andar “nos encontros de militares, nas celebrações dos 10 de junho, em praias, nos autocarros, a mudar o meu trajeto porque via alguém”, sempre atento a uma tatuagem que apontasse para a presença nas ex-colónias.

“Não durmo. Se eu lhe contar, já não durmo esta noite... Só de falar já estou todo a tremer”

A abordagem foi tirada a fotocópia: “Olá, sou o João Pinto, estou a fazer um trabalho sobre a guerra colonial e pergunto se posso tirar uma fotografia à sua tatuagem”.Tal como um filme, seguiu o guião em que queria respostas ao porquê?, quando?, quem?, onde (zona geográfica)?, onde (zona do corpo)?, como? e quantas?. Já as entrevistas “não foram programadas”. Não podiam ser.

João Cabral Pinto compreende quem não participou e quem não respondeu à totalidade das perguntas. Em alguns casos a resposta traduziu-se em pouco mais do que fotografar a tatuagem. “Muitos dos antigos combatentes sofrem stress pós-traumático. Diziam 'vai dar uma curva'. Ou mesmo, 'tira lá a foto, mas não digo mais nada'". O nada explica-se numa frase repetidamente escutada pelo autor: “Não durmo. Se eu lhe contar, já não durmo esta noite... Só de falar já estou todo a tremer”.

“Vaidade”. Esta uma das razões para registar no braço a ida para a guerra. Ou apenas “exibicionismo”, explica João Cabral Pinto. “Uma mulher, nessa altura, que casasse com um militar tinha uma boa vida. Era um chamariz para casar”, pisca o olho.

Há razões mais fundas. “A saudade, revolta, dor, luto”, solta na ponta da língua. Mas não só. O “orgulho” de pertença aos paraquedistas ou fuzileiros, a “vontade de servir o país”, a "moda” e o “todos faziam”. Por situações de morte de companheiros ou medo. “Uns explicaram que o fizeram quando estavam junto da fronteira com o Senegal. Pensavam que iam morrer”, e outros por momentos de pura “alienação”, “desespero” ou “raiva”. Ou mesmo, uma simples “recordação”, enumera o autor.

Não fugimos ao desejo da curiosidade: e o "Amor de Mãe, Angola 1969"? Essa evocação materna que fez parte do imaginário pela adolescência fora deste (48 anos) que vos escreve. “É uma expressão que já vem da 2.ª Guerra Mundial”, informa João Cabral Pinto.

“Nas situações de guerra, em que estás a morrer, aflito, por quem é que tu chamas? Por quem? Pela mãe. Não chamas pelo pai. Ai, mãe. Ai, minha mãe...”, o autor recorda uma partilha feita por um dos fotografados. Um nome tantas vezes repetido que deu em música, de Oliveira Muge. “A mais célebre da guerra colonial: Mãe. Foi do mais conhecido na altura”, sublinha o autor do livro “Guerra na pele”.

Para além do Amor de Mãe e de juramento a outros amores, há outros símbolos (o calote e o grifo), siglas (JNRJ, de Jesus da Nazaré Rei dos Judeus), profissões e frases que ficam para a eternidade: “Sangue, Suor e Lágrimas”, que aparece, por vezes, como “SSL”, em abreviatura. Há mapas de Angola, Cabinda, Guiné ou Moçambique, datas de incorporação, “corações com a flecha do Cupido”, frases avulso como “Adeus, África”, “Deus me guie”, “A Pátria Honrai, que a Pátria vos contempla” e “Fui e Voltei”.

Neste revisitar das histórias de quem regressou há casos insólitos. “Um tatuou o nome da namorada, só que esta deixou-o e, por cima, escreveu: eu e um ponto de interrogação”. Outras precipitações. “Um tatuou-se com uma imagem dos fuzileiros, não entrou e foi para os comandos. Ficou com duas tatuagens”, recorda. Há também imagens que pouco têm que ver com o teatro de guerra - “Um pato Donald e um Mickey”.

O grito de libertação. "Para se libertar de tudo”

Esqueça a loja moderna de tatuagens. Na altura, “eram feitas com três agulhas e tinta-da-china. Faziam, às vezes, um esboço, um desenho a caneta”, descreve João Cabral Pinto. “As tatuagens eram feitas por camaradas de armas, destros. Diria 80%. O resto, mais ou menos em partes iguais, civis e locais. E os próprios. Daí, o lado esquerdo ser o mais tatuado”, esclarece. “O antebraço é o que está mais tatuado porque está à vista. Queriam mostrar. E no verão mostram tudo”, sorri.

Este movimento de tatuagens “acontece informalmente no território militar. Parte dos militares não se tatuou durante o período da guerra colonial”, avisa. “A totalidade dos que o fizeram foi de tal modo importante e impactante que foi considerado uma subcultura informalmente inserida na estrutura militar. Os militares nunca assumiram a tatuagem, não é oficial”, atira.

Das inúmeras imagens cravadas nos corpos de ex-combatente, duas não o deixaram indiferente. “Um homem com uma corrente quebrada no peito. Quando a mostrou apanhei um susto. Disse-me que era um grito de libertação. Um grito para se libertar de tudo”. A outra carrega o divino. “Um rapaz de 75 anos com um Cristo crucificado nas costas”, anota. “É a minha guarda. Guarda-me as costas”, disse.

“Não me meto na interpretação do desenho”, revela. "Mas sei que a cobra representava o mato africano. A faca é a luta”. Uma “caveira e ossos” é comum. “Sou mau, tenho sorte e vou lixar-vos. Estou aqui para estar na guerra”, sustenta.

A conversa decorre e aproxima-se do fim à medida que folheamos as quase duzentas páginas do livro. “Reduzi de 350 páginas para 192”, explica. Fez uma “síntese”, adianta. “Expurguei considerações políticas, militares e sociais e expurguei as ciências sociais e humanas, porque isto tem um lado sociológico”, garante João Cabral Pinto.

O mais marcante, para além da visualização das tatuagens, foi o facto de serem “intensas para o ânimo e desânimo”, frisa. “Para uns, foi uma viagem a uma fase de vida, para outros, o lado negativo. O lado do 'julgava que ia morrer, que via os camaradas a morrer e que nunca mais me vinha embora,' do 'vou ao puto', que significa ir à metrópole”, retrata. “Foram para a guerra com 18 anos. Tatuaram-se com 18 e 20 anos. Hoje são putos tatuados com 75 anos”. No fundo, é gente orgulhosa de ter servido a pátria”, analisa o autor, filho de um militar que esteve em Angola.

“Foram conversa muito intensas. Chorei a fazer isto. Não tocava há cinco anos [no projeto] e abrir o livro outra vez e começo a lembrar-me das situações emocionantes que não estão aqui partilhadas. Talvez para uma próxima”, antecipa.

“Tenho tido muitas respostas da estrutura militar. Dizem-me que é património cultural. É memória coletiva. Uma memória que não se apaga. Como as tatuagens de quem lá esteve. Não pode desaparecer. São imagens. São memórias. Que se guardam. Que ficam. Que não se podem apagar”, resume.


18 comentários:

  1. A guerra vivida por dentro.
    Já ouvi tantos relatos de quem a viveu.
    Aquele abraço, bfds

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  2. Deve ser muito interessante.
    Abraço e bom fim de semana

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  3. Sou antigo combatente, mas não tenho tatuagens. Estive em Angola como alferes miliciano atirador de Infantaria entre 1972 e 1974. Comandei um pelotão, integrado numa companhia de caçadores. Em Santa Margarida, antes da partida para Angola, os meus soldados apareceram-me quase todos tatuados. Tinham tatuagens muito toscas com os dizeres habituais: "Amor de Mãe", "Amor de Pais", "Angola 72-74", um coração, o nome da namorada, etc.

    - O que é isto? - perguntei-lhes.

    - São tatuagens, meu aspirante - responderam-me. - Fomos ao Bairro Alto, em Lisboa, onde há um gajo que faz tatuagens. Nós agora somos guerreiros, meu aspirante!

    - Guerreiros, vocês? Vocês podem impressionar as miúdas com essas tatuagens, mas a mim não impressionam. Em Angola é que eu quero ver os guerreiros!

    Ficaram ofendidos com esta minha observação. Responderam-me:

    - O meu aspirante não confia em nós? Pois pode confiar! Nós vamos mostrar-lhe que somos guerreiros de verdade. Pode crer! O meu aspirante ainda vai ter orgulho em nós!

    Foram palavras proféticas, estas. Tive e tenho o maior orgulho em ter comandado os soldados mais valentes e mais generosos do mundo. Eles enfrentaram as balas de peito descoberto, avançaram por caminhos minados, contornaram armadilhas mortais, foram até onde ninguém tinha ido antes, mas acima de tudo nunca deixaram de ser sensíveis à morte e ao sofrimento humano. Nunca se deixaram desumanizar. Eles foram os melhores.

    O que terá levado jovens como eles a marcarem a pele de forma indelével com tão rudimentares tatuagens? Esta é uma pergunta à qual não sei responder, pois nunca senti a vontade de me fazer tatuar. Talvez a razão para se fazerem tatuar seja a mesma que leva os militares de carreira a exibir galões, medalhas e penachos. Enfim, este é um assunto para os antropólogos e sociólogos responderem.

    (continua)

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  4. (continuação)

    A evocação da mãe era uma constante entre os combatentes da guerra colonial. A propósito de tudo e de nada, lá falavam eles na sua querida mãe. «É para isto que uma mãe cria um filho», diziam eles muitas vezes, lamentando-se da sua triste sorte. Curiosamente, o pai raramente era evocado; era sempre a mãe e também era a namorada ou esposa (havia alguns que já tinham casado), enfim, era a companheira para cujos braços ansiavam correr no fim do serviço militar. Mãe, esposa, namorada, amante ou o que quer que fosse, era sempre uma figura feminina que eles evocavam lá longe e por quem choravam.

    A canção "Mãe", do Conjunto de Oliveira Muge (https://www.youtube.com/watch?v=thc6PicrgNQ), referida pelo autor do livro, foi muito popular em Moçambique, onde foi gravada, e talvez na Guiné, mas em Angola ela era completamente desconhecida. O que se ouvia em Angola era uma outra canção igualmente lacrimogénea, de um cantor brasileiro chamado Teixeirinha, chamada "Amor de Mãe". No programa radiofónico de discos pedidos "A Hora do Soldado", que era transmitido diariamente a partir de Luanda, o "Amor de Mãe" de Teixeirinha nunca faltava. Nunca. Mas não era a única.

    Uma outra canção que nunca faltava na "Hora do Soldado" era do Roberto Carlos e chamava-se "Eu te amo, te amo, te amo", porque fazia lembrar aos soldados a sua namorada ou esposa. Todos os dias esta canção era pedida. Todos os dias.

    Uma terceira canção que nunca deixava de passar no programa era do Paco Bandeira e chamava-se "Onde o sol castiga mais". Esta era uma canção que falava da guerra (Paco Bandeira fez comissão militar no norte de Angola) e com a qual os soldados se identificavam completamente, apesar de ter uma letra completamente medíocre e até discutível.

    O rock também nunca faltava na "Hora do Soldado". Os Rolling Stones e os Creedence Clearwater Revival, então, passavam sempre, com músicas tais como "(I Can't Get No) Satisfaction", "Jumpin' Jack Flash" ou "Let's spend the night together", dos Stones, assim como o "Have you ever seen the rain", "Proud Mary" ou "Down on the corner", dos Creedence.

    Os Beatles ("Obladi oblada", "Hey Jude" ou "Yellow Submarine") também eram muito solicitados, mas nem sempre. O mesmo se passava com os Doors ("Riders on the storm"), os Procol Harum ("A whiter shade of pale"), os Moody Blues ("Nights in white sattin") e outros.

    Os militares mais politizados pediam frequentemente a música dos Creedence Clearwater Revival chamada "Fortunate Son" (https://www.youtube.com/watch?v=qV4Q-RSQCq0), porque se referia aos filhinhos do papá que escapavam à guerra do Vietname graças a grandes cunhas e favores, tal como acontecia com os que escapavam à guerra colonial.

    Por fim, eram sempre (mas sempre) pedidos para o programa algumas das canções mais pirosas do Brasil e que estavam então na moda, do Nelson Ned, do Lindomar Castilho, do Nilton César, etc.

    (continua)

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  5. (continuação)

    Segue-se um alinhamento de algumas das músicas mais pedidas ao programa "A Hora do Soldado", que era transmitido todas as manhãs a partir de Luanda:

    - "A whiter shade of pale", pelos Procol Harum - https://www.youtube.com/watch?v=Mb3iPP-tHdA

    - "Amor de mãe", por Teixeirinha - https://www.youtube.com/watch?v=O2nOl74bOB8

    - "Cheira bem, cheira a Lisboa", por Amália Rodrigues - https://www.youtube.com/watch?v=exhrWRY8iGk

    - "Domingo à tarde", por Nelson Ned - https://www.youtube.com/watch?v=k_dvbfVNeYk

    - "Eu te amo, te amo, te amo", por Roberto Carlos - https://www.youtube.com/watch?v=smZaOhv2W1U

    - "Have you ever seen the rain", pelos Creedence Clearwater Revival - https://www.youtube.com/watch?v=g4flAZEgtjs

    - "(I Can't Get No) Satisfaction", pelos Rolling Stones - https://www.youtube.com/watch?v=nrIPxlFzDi0

    - "Onde o sol castiga mais", por Paco Bandeira - https://www.youtube.com/watch?v=peRMFGAa6Lk

    - "Receba as flores que eu lhe dou", por Nilton César - https://www.youtube.com/watch?v=NMuAyO_IuyA

    - "Yellow Submarine", pelos Beatles - https://www.youtube.com/watch?v=m2uTFF_3MaA

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    1. Depreendo pelo ano de incorporação que o Fernando seja um pouco mnais velho do que eu. Eu integrei o 4.º turno de 74, no CSM em Santarém, a "desmantelada" Escola Prática de Cavalaria. Este turno foi o último nos moldes até ali existentes. No ano de 1975 já não houve. Creio eu, já sem divisões entre soldados, sargentos e oficiais. Tudo era incorporado no mesmo turno e nos quartéis.

      Estive ainda mobilizado para Angola, em 1975 e formei batalhão, Batalhão de Caçadores 4513, em Santa Margarida, aquartelado no 3.º R.I. Angola já estava independente e o batalhão acabou por ser desmobilizado nos inícios do Verão (O Verão quente político !).

      Também nunca me tatuei, nem tatuarei. :)

      Queria agradecer, Fernando, o seu comentário riquíssimo que de alguma maneira veio confirmar aquilo que o meu colega de equipa, de bilhar, diz no livro, sobre as necessidades de fazerem tatuagens. Ele como pode ter lido, nesta publicação, entrevistou "n" ex-combatentes, com tatuagens feitas. O livro é um manifesto interessante "....

      “Foram conversas muito intensas. Chorei a fazer isto. Não tocava há cinco anos [no projeto] e abrir o livro outra vez e começo a lembrar-me das situações emocionantes que não estão aqui partilhadas. Talvez para uma próxima”, antecipa.

      “Tenho tido muitas respostas da estrutura militar. Dizem-me que é património cultural. É memória coletiva. Uma memória que não se apaga. Como as tatuagens de quem lá esteve. Não pode desaparecer. São imagens. São memórias. Que se guardam. Que ficam. Que não se podem apagar”, resume.".

      Obrigado Fernando Ribeiro

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    2. Caro Ricardo Santos,

      Integrei o 2.º turno de 71 do C.O.M. em Mafra e tive uma tropa inverosímil. Logo no 1.º ciclo, 3 camaradas meus morreram afogados durante a instrução (eu podia ter sido o 4.º) e mais dois ficaram feridos, um dos quais cego de um olho, também durante a instrução. Fizemos um levantamento de rancho espontâneo contra a brutalidade de que fomos alvos.

      Não vou contar tudo o que me aconteceu depois. Apenas direi que fui mobilizado para o norte de Angola, onde vivi várias situações de combate. Comandei um pelotão misto de portugueses e angolanos, que no princípio foram considerados a escória da companhia, mas que acabaram por ser os melhores em todos os sentidos. Tenho imensas saudades dos meus maravilhosos subordinados e guardo as piores recordações de quem me comandou.

      Só os militares portugueses se tatuavam. Os angolanos não, porque as tatuagens não seriam visíveis na sua pele negra. Quanto às preferências musicais, também havia diferenças entre portugueses e angolanos, em resultado das diferenças de gosto e de cultura, o que não os impediu de serem bons amigos uns dos outros. Os angolanos faziam os seus pedidos musicais para um programa existente numa estação de rádio oficial que só passava música angolana, chamada Voz de Angola. A música mais solicitada pelos militares angolanos talvez tenha sido esta: https://www.youtube.com/watch?v=g5IdXeGTNZ8

      Um abraço

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    3. Uma vida militar miliciana cheia de percalços e atribulações. Antes do 25 de Abril as recrutas eram violentas e muitos morreram por lá. No turno equivalente ao meu, mas no ano anterior (1973), tinha morrido um militar debaixo de fogo de uma HK-21.

      Pois as tatuagens não as faziam na altura a branco ou a outras cores, como hoje se podem fazer.

      A música angolana era preferida porque, certamente, lembraria a muitos deles a sua terra, os bailaricos, e as mulheres angolanas.

      Obrigado Fernando

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  6. Permite-me este manifestar de uma opinião, que não me foi pedida, Ricardo.

    É que o fabuloso comentário do teu leitor Fernando Ribeiro, contando a sua experiência sobre a Guerra Colonial, na primeira pessoa, e a importância das tatuagens na vida daqueles que se tatuaram e com ele combateram, impressionou-me deveras.

    Este parágrafo, no final do seu primeiro comentário, diz tanto, mas tanto, nas entrelinhas...embora eu acredite, que os alvos não sejam os bravos soldados que sob o seu comando combateram.

    O que terá levado jovens como eles a marcarem a pele de forma indelével com tão rudimentares tatuagens? Esta é uma pergunta à qual não sei responder, pois nunca senti a vontade de me fazer tatuar. Talvez a razão para se fazerem tatuar seja a mesma que leva os militares de carreira a exibir galões, medalhas e penachos. Enfim, este é um assunto para os antropólogos e sociólogos responderem.

    (Acredito que sim!)

    Obrigada, Ricardo.

    Parabéns, Fernando Ribeiro.

    Bom fim-de-semana.

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    1. Tudo o que influenciou homens a tatuarem-se está descrito no livro nas mais de 200 enrevistas feitas pelo João Cabral Pinto, o meu colega e parceiro de equipa de bilhar às 3 tabelas.
      Obrigado Janita

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  7. Uma publicação altamente enriquecedora... e enriquecida pelo testemunho do comentarista Fernando Ribeiro!
    Grata a ambos, por me darem a conhecer melhor... algo de que já não tive a noção na minha geração... e menos ainda, terão as gerações mais recentes... que acharão que sempre se viveu em alegre, e despreocupada democracia...
    Muito se continua a ignorar, sobre o que foi passado pelos combatentes no Ultramar... e acho que continuam a ser muito desvalorizados os traumas que muitos trouxeram consigo... até hoje...
    Há muitos anos atrás, ajudei a dactilografar uma pequena parte de um relato de guerra, no caso, de uma emboscada, de uma alta patente do exército, que nunca cheguei a saber de quem seria... quando na altura ainda se estava longe da era dos computadores... e fiquei com uma vaga e parcial ideia... do que por lá realmente se passava... provavelmente seria uma pequeníssima parte, de algum relatório... ou projecto literário, da pessoa em questão... Who knows?...
    Um grande abraço
    Ana

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    1. Pouco se falou sim sobre a guerra colonial debaixo do jugo fascista. Era importante ouvir a falar os militares que lá estiveram, para que todos entendessemos o quão mau é a guerra que só serve para "alimentar" alguns negócios :((( !!!
      Obrigado Ana

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  8. Permitam-me mais uma intervenção, para recomendar a leitura de um livro que considero fundamental para a compreensão da guerra colonial e do que sentiram e viveram todos quantos participaram nela, ou dela sofreram e continuam a sofrer as consequências, diretas e indiretas. É a "Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial", de Roberto Vecchi e Margarida Calafate Ribeiro, editada pela Afrontamento em 2011.

    Sempre ouvi dizer que Portugal é um país de poetas e sempre considerei esta afirmação um mero lugar-comum. Ao ler esta antologia, verifiquei que esta afirmação, afinal, é absolutamente verdadeira. A antologia contém Poesia com P maiúsculo, Poesia da melhor que se escreveu nas últimas décadas!

    A poesia tem a virtude de dizer em poucas palavras aquilo que a prosa, muitas vezes, não consegue dizer em centenas de páginas, e pode ter uma densidade humana e psicológica que dificilmente se consegue encontrar na prosa. Leia-se, primeiro, esta antologia e depois, então, poder-se-á ler, se se quiser, o que escreveram sobre a guerra prosadores tão ilustres como António Lobo Antunes, João de Melo, Carlos Vale Ferraz, etc.

    Se não se encontrar à venda nas livrarias, a "Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial" está à venda online, segundo me parece.

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    1. Fernando muito obrigado pela sugestão que me parece excelente para mim e todos os que por aqui passam. Na realidade a poesia é algo que está connosco,portugueses.

      Alguns links para comprar "online"

      https://www.wook.pt/livro/antologia-da-memoria-poetica-da-guerra-colonial-roberto-vecchi/10991777

      https://www.fnac.pt/Antologia-da-Memoria-Poetica-da-Guerra-Colonial-Margarida-Calafate-Ribeiro/a1013440

      https://www.bertrand.pt/livro/antologia-da-memoria-poetica-da-guerra-colonial-roberto-vecchi/10991777

      Abraço

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  9. Boa tarde,
    Ando à procura de informação sobre como comprar este livro, pode ajudar-me? Já tentei contacto na página de FB mas não obtive resposta.
    Muito Obrigada.
    Ana Bernardo

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    1. Cara Ana Bernardo
      Se puder dê-me um Email seu para eu poder direccioná-lo para o meu colega João Cabral Pinto.
      Obrigado
      Cumprimentos

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Eu fiz um Pacto com a minha língua, o Português, língua de Camões, de Pessoa e de Saramago.