A paixão nua e cega dos estios, Atravessou a minha vida como rios

Sophia de Mello Breyner Andresen, A Paixão Nua, in “O Nome das Coisas”.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Carmen de Georges Bizet

Ópera, o porquê !?…

O meu Pai foi, sem dúvida, o causador de eu gostar de ópera. Durante a minha juventude, iniciou-me a ouvir música dita “erudita” e deu-me a conhecer algumas das grandes obras, de grandes compositores.
Pelos anos 70, ainda patrocinada pela FNAT, posterior INATEL, havia em Lisboa, uma temporada anual de ópera, levada à cena no Teatro da Trindade e interpretada por cantores portugueses. Essa temporada, frequentei-a durante alguns anos, com os meus pais.
Para quem nunca ouviu ópera, posso dizer que é diferente de tudo o resto, e nesta diferença com qualidade é que está o nosso ganho. É como o jazz, ou outro género musical, deve-se ouvir com atenção, tentar entender, e não ouvir só para distrair. Não sejamos superficiais. É aquele fugir à rotina que vos venho falando desde o início deste blogue e do anterior blogue, a procura do diferente.
Não foi com "Carmen" que me estreei a ouvir ópera (foi com o "Barbeiro de Sevilha" de Giacomo Rossini), mas penso que "Carmen" é uma muito melhor escolha, para nos iniciarmos neste género musical.
Explicar-vos tecnicamente, o que é este género musical, ou o que são, os tenores, os sopranos, os barítonos e os baixos, não vou ter essa veleidade. Sou um mero melómano, curioso, como muitos de vocês, e infelizmente não tenho suficientes conhecimentos musicais para esse tipo de explicação técnica.
No entanto, sei que as vozes masculinas se dividem em tenores (vozes mais agudas), barítonos (vozes intermédias) e baixos (vozes mais graves). As vozes femininas dividem-se, em sopranos (vozes mais agudas) e meio-sopranos e/ou contraltos (vozes mais graves). Depois entre cada tipo de voz existem subdivisões, por exemplo, os tenores podem ser líricos, dramáticos, absolutos, ou os sopranos podem ser líricos e dramáticos, os baixos podem ser “bufos”, etc.. E fiquemos por aqui.
  

Resumo da história desta Ópera

Conta a vida dos contrabandistas, em dada região da Andaluzia (ano de 1820), das cigarreiras e de Carmen, uma cigana e operária, que faz com que um militar das brigadas dos Dragões de Almanza, D. José, se apaixone por ela e deserte à sua vida militar. D. José, cego de amor, acaba por se juntar aos contrabandistas. Mas, Carmen, é uma mulher leviana e apaixona-se por Escamillo, um "espada" (toureiro). O ex-militar destroçado com tamanha leviandade e após ter desgraçado a sua vida pessoal, pelo amor que lhe tinha, apunhala-a no peito, perto da entrada, da Praça de Touros, onde Escamillo, , após a sua actuação, está a ser aclamado pela multidão.

Personagens de Carmen

D. José, (brigadas dos Dragões de Almanza)….........Tenor
Escamillo, “Espada” de Granada…………………….   Barítono
Dancairo, (contrabandista)……………………………..Tenor
Remendado, (contrabandista)…………………………Tenor             
Zúñiga, (capitão do regimento dos Dragões)…......... Baixo 
Morales, (brigadas)……………………………………...Barítono
Carmen, (cigana)………………………………………...Meio-Soprano
Micaela, (camponesa)…………………………………..Soprano
Frasquita, (companheira de Carmen)…………….......Soprano
Mercedes, (companheira de Carmen)…………….......Soprano

Do autor Georges Bizet, … (excertos)

Sobrinho de uma pianista de mérito – Madame Delsarte – e filho de um professor de canto, nasceu em Paris a 25 de Outubro de 1838 e foi registado com o nome de Alexandre César Leopoldo Bizet, mas como o padrinho, velho e dedicado amigo da família, tivesse preferido que ele se chamasse Jorge, adoptou mais tarde esse nome, como nome artístico.
Após ter escrito “Pescadores de Pérolas” (1863), “La Jolie Fille de Perth” (1867) e “Djamileh” (1872) que foram acolhidas com frieza pela imprensa da altura, que o deixou muito desgostoso, Bizet afastou-se da cena musical. Nessa altura Leão Cavallo (1825-1897) que estava à testa dos destinos do Teatro Lírico em França, logrou convencê-lo a escrever a música de cena (prelúdios, intermédios, danças e coros) para a ópera “A Arlesiana” de Afonso Daudet (1840-1897). A estreia dessa ópera causou um enorme sucesso e deu outro ânimo a Georges Bizet que decidiu meter ombros à empresa de musicar um “libreto” que Henrique Meilhac (1832-1897) e Ludovic Havély – sobrinho do compositor com o mesmo apelido – (1834-1908), haviam extraído da célebre novela Carmen, de Próspero Merimée (1803-1870). Subiu pela primeira vez à cena em 3 de Março de 1875.
A crítica foi fria e hostil, “enterrando” a ópera Carmen de Bizet, com excepção do “Journal des Débats”, onde Ernesto Reyer entrevia a verdade. Um dos críticos da época Óscar Comettant (1819-1898), na publicação “Siécle”, foi ao ponto de escrever: “Bizet já não tem nada que aprender do que se ensina, mas, infelizmente, tem grande necessidade de adivinhar o que não é ensinável”.
Quanto eles estavam todos errados, com excepção de Ernesto Reyer.
Três meses mais tarde, a 3 de Junho de 1875, Bizet falecia, inesperadamente, nos arredores de Paris, em Bougival. Tinha 36 anos. Não se sabe ao certo de que morreu. Embolia, crise cardíaca ou de reabsorção purulenta, filha de algum abcesso na garganta, já que Bizet sofrera toda a sua vida de anginas. No entanto, sempre se associou a sua morte, às críticas constantes e aos insucessos da sua obra musical.

Texto extraído e adaptado de:
Colecção "Ópera", Volume 11, Direcção Mário de Sampayo Ribeiro, Editor Manuel B. Calarrão, Lisboa, Fevereiro de 1947,  Preço 4$00.

Alguns dos trechos musicais escolhidos por mim, para ouvirem, estão cronologicamente dispostos pela sua aparição em cena, desde a abertura da peça, até à ária final, onde D. José assassina a sua amada Carmen e se entrega aos militares.
No entanto, eles são apenas um pequeno exemplo, visto que esta obra é grande e rica. É um espectáculo com cerca de 2 horas e meia, de exibição. A última vez que o presenciei, foi há dois anos, no Teatro Nacional de São Carlos, numa excelente encenação.
Para terminar, aconselhar-vos-ia, se algum dia a ópera Carmen (1875) do compositor francês Georges Bizet (1838 – 1875), estiver, de novo, em exibição em Lisboa, nalguns dos pouquíssimos teatros desta cidade, aproveitem e vão ver. É um espectáculo extraordinário de colorido, com canto e bailados, extremamente agradável de ver e ouvir. Garanto-vos que não vão deitar dinheiro à rua.
Não existindo essa possibilidade importantíssima de a ver ao vivo, existem muitos DVD's, com variadas versões (www.amazon.fr). Em baixo uma delas:


Trechos Musicais

Abertura da Carmen, Orquestra “The Royal Opera House”, dirigida por  Zubin Metha, no teatro “Covent  Garden”, em Londres, a 1 de Janeiro de 1991.


Coro das crianças de rua com “The Georgia Boy Choir”. Em 23 de Abril de 2010, no “Rialto Center for the Arts”, em Atlanta, EUA.


“Habanera”, também conhecida como “L'amour est un oiseau rebelle” (O amor é um pássaro rebelde). Carmen com Francesca Zambello (Meio Soprano),


“Parlez-moi de ma Mére” (Fala-me da minha Mãe), dueto entre Don Jose e Micaela. Don Jose com Placido Domingo (Tenor), Micaela com Faith Esham (Soprano).


“Seguidila”. Carmen com Elena Obraztsova (Meio-Soprano) e Don Jose com Placido Domingo (Tenor). Em 9 de Dezembro de 1978.


“Toreador”. Escamillo com David Holloway (Barítono).


Quinteto “Nous avons en tête une afaire” (Temos um negócio para realizar). Carmen com Teresa Berganza (Meio-Soprano), Frasquita com Daniele Perriers (Soprano), Mercedes com Jane Berbie (Soprano), Dancairo com Michel Philippe (Tenor) e Remendado Michel Senechal (Tenor). Em 14 de Maio de 1980.    


“La fleur que tu m’avais jetée” (A flor que me atiraste ). Don Jose com Robert Alagna (Tenor). Em Julho de 2004.


Dueto da morte de Carmen. Carmen com Rinat Shaham (Meio-Soprano), Don Jose com  Roberto Alagna  (Tenor). Em 7 de Julho de 2013.

12 comentários:

  1. Olá e eu que coloquei a Coppélia no meu post de ontem!!!
    quando ouvimos ópera é como entrar numa outra dimensão...
    foi bom ler umas explicações sobre os tons das várias vozes
    boa noite!
    Angela

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    1. A Carmen é uma ópera admirável e de audição obrigatória para quem goste deste género musical.
      Obrigado Ângela

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  2. Comecei a gostar de Ópera muito tarde, já nos 30. Agora, adoro!
    Carmen é incontornável, e tu fizeste-lhe uma belíssima apresentação!

    Beijinhos Marianos, Ricardo! :)

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    1. Tentei fazer o meu melhor. Como disse sou um mero melómano, mas tenho o conhecimento suficiente de um bom apreciador musical, e Bizet, com a "Carmen", são como dizes e muito bem, "incontornáveis". Vamos ter mais, em breve !
      Muito obrigado Maria :)

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  3. Que belíssima apresentação, RICARDO!!!

    Os meus pais não são os causadores de eu gostar de ópera. Gostavam de teatro, mas não de ouvir música “erudita”.

    Embora CARMEM não seja a minha ópera favorita, já vi e ouvi esta ópera várias vezes.

    RICHARD WAGNER é o meu compositor de eleição.

    Fim de semana musical.

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    1. Imagino que sim que Wagner seja o teu compositor de eleição. Aliás, também gosto bastante de Wagner, da sua música heróica.
      Gosto de música ponto final. O género para mim, não é assim tão importante, desde que ela seja boa, bem construída e que me agrade ao ouvido.
      Talvez te consiga fazer uma surpresa. Tenho rascunhos escritos, do meu outro blogue, para uma ópera de Wagner.
      Teresa, obrigado pelo teu comentário

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  4. Estou a conhecer mais e gostar desde que venho ouvir aqui Ricardo.
    Obrigada
    Ficava sempre com um pé atrás( como se diz ), quando pensava em música clássica _apesar de entende-las como especiais
    Hoje tenho me surpreendido ouvindo e me deleitando.
    Belas escolhas
    meu abraço de domingo

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    1. Lis ainda bem que gostaste das minhas escolhas e que te mostraram músicas diferentes e do género clássico. Boa audição !
      Obrigado pela tua simpatia

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  5. Carmen será das composições mais conhecidas neste género.
    Porque é fácil de ouvir, porque é excelente.
    Aquele abraço, votos de boa semana

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    1. É uma ópera que eu sempre que tenho oportunidade e sempre que faz parte do programa do nosso teatro lírico, tento não perder.
      Gostaria ainda um dia (difícil !) de a ir ver ao Scala de Milão ! (sonhos !)
      Obrigado Pedro

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  6. Bons momentos. Não sou conhecedora, mas sou apreciadora.

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    1. O saber apreciar é o começo para o querer conhecer mais a fundo !
      Obrigado Luísa

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Eu fiz um Pacto com a minha Língua, o Português, língua de Camões e de Pessoa.